quarta-feira, 20 de outubro de 2021

VOZES DE RETRATOS ÍNTIMOS (ROMANCE)

 





Em Vozes de retratos íntimos, primeiro romance de Taiasmin Ohnmacht, acompanhamos como o racismo se entrelaça às memórias familiares
A partir da contemplação de fotografias da família, a narradora-personagem de Vozes de Retratos Íntimos tece a trajetória da sua cor e do seu sobrenome, evidenciando como o racismo se encrusta na história brasileira. A reconstituição de memórias empreendida na obra, que traz traços autobiográficos, expõe as marcas sociais com que se deparam os brasileiros ao abrir um álbum de família em que está presente o corpo negro ao lado do corpo branco.

Acompanhamos pela voz da personagem fatos históricos a partir de perspectivas distintas pela cor dos seus antepassados. A obra resgata a chegada dos primeiros precursores da família nos diferentes contextos de imigração e acompanha as sucessivas gerações até o presente. A partir dos caminhos dos personagens pela história brasileira, compreendemos a condição à margem da sociedade que o imigrante negro foi colocado diante do protagonismo dado a imigrantes brancos.

Romance: Vozes de Retratos ìntimos
Autora: Taiasmin Ohnmacht
Ano: 2021
Editora: Taverna

Livrarias: Taverna, Cirkula, Bamboletras, Traça.

Entregas para todo Brasil:
Pelo site https://livrariataverna.com.br/

quarta-feira, 28 de julho de 2021

TODOS OS DIAS

 


Taiasmin Ohnmacht

todos os dias

o vem e vai

filho em casa

filhos na vida

refeições, insulinas

recomendações

controles

medos

almoços e esquecimentos

quem se importa?

a professora da filha

que esqueceu o caderno de caligrafia

a professora do filho

que fingiu não ter prova de geografia

e eu sigo

de ônibus, lotação

táxi, a pé

sem celular - esqueci em casa

sem comer - não deu tempo

sem chaves - vou ficar na rua

SÓIS

 




Taiasmin Ohnmacht


Só não

era mais do que isso

so-zi-nha

assim, no feminino


Um dia fui sozinha


um dia

antes do olhar

e da pele macia

hoje sóis

pontos luminosos conexos

pele em bronze

luz própria

AMANHECER

 


Taiasmin Ohnmacht

seguro o sol incerto da manhã

a madrugada embaraçou meus cabelos

em nuvens de sonhos e pensamentos

quarta-feira, 2 de junho de 2021

MATÉRIA DO HORROR

 



Taiasmin Ohnmacht

A coisa abre mais que a boca, abre a goela. Um tubo indigesto de se olhar e mesmo assim hipnotizante. A coisa convida, é faminta e promete matar a fome de seu convidado ao mesmo tempo em que se sacia.

A coisa é sedutora e insidiosa. Ela promete a calma da digestão, o abrigo da saciedade, os sonhos vazios.

É uma goela grande, abriga fácil um corpo adulto, mas é uma viagem solitária, apenas um por vez. E a coisa não é capaz de prometer companhia, nem mesma a sua, não possui qualquer noção de si mesma.

A coisa convida, caso a pessoa aceite, o passo seguinte é o nada. Para a coisa e para a pessoa.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

VOU DIRETO AO PONTO E O VIRGULO

 

Taiasmin Ohnmacht 

eu vou direto ao ponto

que me cala a boca

vais ter que suportar

minhas incertezas

vais ter que suportar

meus equívocos

não os usará mais

para me calar

vou direto ao ponto

e o virgulo

***

te adornas com meus olhos castanhos

olhos de mágoa

olhos de susto

te adornas com meu silêncio

sobre ele fazes ecoar tua fala

sobre ele amplia tua voz

te adornas com minha pele

porque marrom te cai bem

desde que adereço

te adornas com meus crespos

e cria teu lugar de sedas

fatias meu corpo

ignorando meus movimentos de trança

de trama

de rede

a tecer tua queda

a tecer minha liberdade

sexta-feira, 14 de maio de 2021

As sevícias de Pai Francisco

 Pai Francisco entrou na roda

Tocando seu violão

Tá-ram-ram-tam-tão

E vem de lá seu delegado

Pai Francisco foi pra prisão


Como ele vem

Todo requebrado

Parece um boneco

Desengonçado


Por que Pai Francisco foi preso? Por ser um líder espiritual de uma religião de matriz africana ou por tocar violão? 

Talvez pelos 2 motivos.

No início do século 20 tanto o samba quanto o violão nas mãos de negros eram considerados sinal de vadiagem, e davam cadeia.

Mas não bastou prender, foi preciso torturar. Tortura policial, violência de Estado cantada na voz de gerações de lindas criancinhas.

Tudo natural e corriqueiro como é pra quem hoje ainda não se choca com as chacinas nas favelas e comunidades do país. Brasil, meu brasileiro. O que vem depois? Desafio vocês a procurarem o significado de inzoneiro.

Mas tudo isso porque acordei com as sevícias impostas ao Pai Francisco tocando na minha cabeça. Não sei por qual motivo. Essa canção constava no meu livro de música na época do colégio, depois a reencontrei quando minha filha se tornou fã da galinha pitadinha e, sim, ela foi uma das lindas criancinhas ensinadas desde de cedo a nossa brasilidade instituída.

Mas faz anos que não escuto a música, por que agora?

Talvez porque ontem fui ao protesto contra a chacina no Jacarezinho, e fiquei um pouco preocupada que houvesse alguma repressão  policial, li que no dia anterior estudantes foram presos por protestarem contra o ministro da educação, e vou percebendo os riscos que corremos, cada vez mais. 

Ontem me entregaram um panfleto: "A polícia e os governos não nos protegem!" 

Pai Francisco nos ensina isso, desde criancinhas.