quarta-feira, 28 de julho de 2021

TODOS OS DIAS

 


Taiasmin Ohnmacht

todos os dias

o vem e vai

filho em casa

filhos na vida

refeições, insulinas

recomendações

controles

medos

almoços e esquecimentos

quem se importa?

a professora da filha

que esqueceu o caderno de caligrafia

a professora do filho

que fingiu não ter prova de geografia

e eu sigo

de ônibus, lotação

táxi, a pé

sem celular - esqueci em casa

sem comer - não deu tempo

sem chaves - vou ficar na rua

AMANHECER

 


Taiasmin Ohnmacht

seguro o sol incerto da manhã

a madrugada embaraçou meus cabelos

em nuvens de sonhos e pensamentos

quarta-feira, 2 de junho de 2021

MATÉRIA DO HORROR

 



Taiasmin Ohnmacht

A coisa abre mais que a boca, abre a goela. Um tubo indigesto de se olhar e mesmo assim hipnotizante. A coisa convida, é faminta e promete matar a fome de seu convidado ao mesmo tempo em que se sacia.

A coisa é sedutora e insidiosa. Ela promete a calma da digestão, o abrigo da saciedade, os sonhos vazios.

É uma goela grande, abriga fácil um corpo adulto, mas é uma viagem solitária, apenas um por vez. E a coisa não é capaz de prometer companhia, nem mesma a sua, não possui qualquer noção de si mesma.

A coisa convida, caso a pessoa aceite, o passo seguinte é o nada. Para a coisa e para a pessoa.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

VOU DIRETO AO PONTO E O VIRGULO

 

Taiasmin Ohnmacht 

eu vou direto ao ponto

que me cala a boca

vais ter que suportar

minhas incertezas

vais ter que suportar

meus equívocos

não os usará mais

para me calar

vou direto ao ponto

e o virgulo

***

te adornas com meus olhos castanhos

olhos de mágoa

olhos de susto

te adornas com meu silêncio

sobre ele fazes ecoar tua fala

sobre ele amplia tua voz

te adornas com minha pele

porque marrom te cai bem

desde que adereço

te adornas com meus crespos

e cria teu lugar de sedas

fatias meu corpo

ignorando meus movimentos de trança

de trama

de rede

a tecer tua queda

a tecer minha liberdade

sexta-feira, 14 de maio de 2021

As sevícias de Pai Francisco

 Pai Francisco entrou na roda

Tocando seu violão

Tá-ram-ram-tam-tão

E vem de lá seu delegado

Pai Francisco foi pra prisão


Como ele vem

Todo requebrado

Parece um boneco

Desengonçado


Por que Pai Francisco foi preso? Por ser um líder espiritual de uma religião de matriz africana ou por tocar violão? 

Talvez pelos 2 motivos.

No início do século 20 tanto o samba quanto o violão nas mãos de negros eram considerados sinal de vadiagem, e davam cadeia.

Mas não bastou prender, foi preciso torturar. Tortura policial, violência de Estado cantada na voz de gerações de lindas criancinhas.

Tudo natural e corriqueiro como é pra quem hoje ainda não se choca com as chacinas nas favelas e comunidades do país. Brasil, meu brasileiro. O que vem depois? Desafio vocês a procurarem o significado de inzoneiro.

Mas tudo isso porque acordei com as sevícias impostas ao Pai Francisco tocando na minha cabeça. Não sei por qual motivo. Essa canção constava no meu livro de música na época do colégio, depois a reencontrei quando minha filha se tornou fã da galinha pitadinha e, sim, ela foi uma das lindas criancinhas ensinadas desde de cedo a nossa brasilidade instituída.

Mas faz anos que não escuto a música, por que agora?

Talvez porque ontem fui ao protesto contra a chacina no Jacarezinho, e fiquei um pouco preocupada que houvesse alguma repressão  policial, li que no dia anterior estudantes foram presos por protestarem contra o ministro da educação, e vou percebendo os riscos que corremos, cada vez mais. 

Ontem me entregaram um panfleto: "A polícia e os governos não nos protegem!" 

Pai Francisco nos ensina isso, desde criancinhas.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

AMORES DIGITAIS

 




Taiasmin Ohnmacht


I

eu escrevo e te tenho

mesmo quando não estás

quiseste sair

e eu fiquei me apegando

a palavras

que a barra de rolagem levou

 

II

o teu olhar é dissimulado

o meu, fugidio

bocas que se querem

e mentem

união

prazer

 

III

espero numa palavra

a saliva que não poderás me dar

que os teus dedos

se acomodem em meu corpo

ao digitarem a eterna pergunta:

“Como vai?”

 

IV

tentei te acomodar em mim

reduzi o passo

retardei a vida

para te esperar

tentei encontrar lugar

para o que seria o amanhã

contigo

mas o teu tempo

não é o meu

e nunca será

meu amigo


domingo, 21 de fevereiro de 2021

VERÃO PASSADO

 


Taiasmin Ohnmacht

 

            Um dia de sol. Ideal para um banho de mar, vou deixar as ondas me levarem e me devolverem, vou ser um corpo vivo-morto, ser menina de novo, criança nos braços de Yemanjá. Se me arrumar logo despisto meu filho, não preciso de ninguém me cuidando nas brincadeiras que sei desde minha infância.

“Mãe, aonde você vai?”

            Merda! Não fui rápida o suficiente.

            No olhar do meu filho o reflexo de outras paredes e mobílias. Vejo a paisagem da janela, os edifícios escurecidos do centro da cidade e o sol pálido.

“Mãe, que roupa é essa?”

            Sinto um pouco de frio em meu maiô e o mar que não está lá fora, já não é atraente. Há um espaço entre o olhar confuso dele e o meu, e a distância é maior do que a sala onde estamos. Eu sei que um dia vou me perder e perdê-lo. O meu filho me olha com pena e tristeza.

            Invento estar provando a roupa de banho para o próximo verão, ele murmura que falta muito ainda.

“Tenho saudade do mar.”

            Ele não responde nada.

            Tenho incontáveis saudades e me apego a cada uma delas sabendo que enquanto sentir falta é porque me lembro, tenho medo do dia em que encontrar vazio em tudo. Dizem que isso vem antes da morte, mas acho que quando chegamos neste ponto a morte já nos encontra mortos.

            Jamila chega e me encontra na cama. Resolvi deitar, tenho medo de me perder no apartamento. A menina acha engraçado me ver embaixo das cobertas no meio da tarde, levanta as cobertas sem cerimônias para aconchegar o pequeno corpo ao meu, ela me descobre de maiô e dá risada. O que sei? Que é minha neta, meu filho está com ela, não vem sempre, mora com a mãe. Ainda me lembro.

“Eu também posso colocar meu biquine, vovó?”

            Por que ela teria biquini na minha casa? Sim, agora eu me lembro que não estou no litoral e é outono, mas desisti de compreender mais do que isso basta lembrar, o pai dela que se vire com a história do biquini, eu só quero saber do sorriso de Jamila.

“Sim! Vamos fazer uma bela dupla!”