segunda-feira, 30 de março de 2020

IMAGEM VAZIA

A oração e o silêncio de Deus | Pão Diário


Taiasmin Ohnmacht

eu quero apagar as linhas
desescrever letra por letra
restabelecer o branco da folha
quero desdizer o que disse
chegar ao silencioso ato
da mão que em seu último traço
apaga o primeiro
sem rastros
hoje quero o silêncio da morte
a boca muda
que você não venha
estou muito cansada
para suportar as palavras
elas me doem em suas exigências
fecha a boca
vou fazer silêncio

NENHUMA HISTÓRIA PARA CONTAR

Brasil Fora de Estrada: Briga dos Pneus



Taiasmin Ohnmacht

Fui embora de Recife
Voltei ao Guarujá
Um amor meio trambique
Nenhuma história para contar

Enfadonha a mente
Do Espírito Santo
Papo vazio, deprimente
Se um dia eu for a Roraima
Compro champanhe e aguardente

Balão
Cai no chão frio
Dessa terra desbotada
Não cai não
Desse Sul
Não sai mais nada

sexta-feira, 27 de março de 2020

PORQUE O AMOR

ventos


Taiasmin Ohnmacht


porque o amor é ridículo

porque o amor é tua ausência

porque o amor é o que não sei

o que não tem

aquilo que teus olhos não dizem

porque o amor é qualquer coisa

desencontros e mal entendidos

porque o amor é te sentir

quando não estás

quando saíste

quando não vais voltar

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

JOGO




Taiasmin Ohnmacht 

Ando de mudança em mudança pela vida
Em caixas
Organizo ideias, transporto conceitos,
Mas mal me ajeito
Já as desmonto

Uma caixa desmontada
Algo como o esboço de um tabuleiro
A liberdade exige movimento das peças
E em cada quadrado cabe um corpo inteiro
Para ficar? Para partir?
De mim, só entendo o vento no rosto
E a estrada aberta
Que fale quem me viu passar
E fale o que entendeu
Amanhã terei outro nome
E a caixa aberta para novo jogo

domingo, 12 de janeiro de 2020

NA FOLHA



Taiasmin Ohnmacht

na folha
um borrão de tinta
suspira ai-de-mim
o mestre lê
deixa-disso
o seu nariz torcido
me deixa aflito

na folha
lorotas
para fazer cócegas
na ponta da língua
quem sabe surge um sorriso
aonde preciso

sexta-feira, 3 de maio de 2019

ENTRE

  Resultado de imagem para PENUMBRA SALA


Taiasmin Ohnmacht

  mas sei, tem algo que não se encaixa, sempre tem. No caso desta sala, sou eu, porque estante e mesa combinam super bem.
  Tem uns óculos em cima do aparador que são de ninguém, mas como estão ao lado de uma agenda aberta, página em branco, talvez eles esperem algum registro para se arvorarem utilidade.
  Os controles remotos são rebeldes, se sabem desejados, daí se dão ao luxo de brincar de esconde-esconde com urgências fingidas.
  O sofá faz convites para a escolha de um livro da estante. A comodidade do assento para viagens sem cinto e sem segurança.
  Flores artificiais no vaso garantem que o risco de morte seja apenas meu.
  Garanto a minha vida quente e perfumada no café que passo para as visitas, mas não me encaixo bem nem no sofá, nem na estante.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

ENQUANTO AINDA

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          Taiasmin Ohnmacht

          Estamos em 2019.
          80 tiros fuzilam uma família. Negra. 80 tiros matam um músico. Negro.
Foi o exército! Foi o exército!
O braço armado do Estado sabe bem quem são seus inimigos, porque o braço armado do Estado é o mesmo que baixava a chibata em João Cândido, é o mesmo que dizimou os Lanceiros Negros. O braço armado do Estado é verde-oliva, mas também é branco. E protege o princípio estampado na bandeira. A ordem para os negros não saírem da periferia e das instituições de correção; o progresso do branqueamento da população. Estamos em 2019, mas já era assim em 1919, e mesmo antes, por testemunha: Palmares e os capitães do mato.
          80 tiros e o silêncio. Serviço feito: o Estado não suporta que um preto seja pai, que uma preta seja mãe. Que a criança preta tenha uma família. E o Estado não suporta e não dá suporte. Fugiu ao roteiro, eles dizem, e eliminam, e riem. Porque o Brasil permite o gozo, em fardas, ternos e togas.
          E a ralé miúda branca espraiada por esse chão, se apega a suas peles e dá dois suspiros de alívio, agradecendo às armas por manter abastecidos os cemitérios, hospícios e prisões, mas sobretudo, agradecida por salvar a cotação de suas brancuras no mercado nacional, gratidão que muito diz de suas misérias.
Fomos acusados de exagero ao reivindicar a cultura negra para o negro, enquanto a branquitude reivindica a humanidade apenas para si, e ninguém discute.
Era trabalhador: 80 tiros. Era uma família: 80 tiros. Era pai: 80 tiros. Era preto, por isso não bastou eliminar, era preciso rir também.
Preta, preto, lembre-se de seu avô preso, lembre-se de sua avó, um assassinato nunca investigado, lembre-se de seu irmão desaparecido, lembre-se de seu tio acusado injustamente. Não é preciso olhar muito longe para ver as grades-dentes famintos por nossos corpos.
E lembre-se, sobretudo, que a brancura ofusca, é preciso usar filtro irmã, é preciso usar filtro irmão. É preciso escurecer.