SANGRIA*
Taiasmin Ohnmacht
Cena:
Um aposento no
futuro. Futuro do mundo e da vida de uma mulher. Um futuro pós patriarcado.
Personagens:
Recém-chegada:
mulher no climatério, colonizada pelo discurso machista. Chega no futuro de
toda mulher – o envelhecimento e a menopausa – e chega em um futuro pós-revolução
feminista
Sabedoria: uma
das três entidades que garantem esse futuro. Tem consciência de como era na
época da Recém-chegada, e do conhecimento que mantinha as mulheres subjugadas.
Amanhã: Uma das
três entidades que garantem o futuro. Marca a diferença entre os tempos.
Terror: Uma das
três entidades que garantem o futuro. O terror sustenta a necessidade
revolucionária e de sacrifício para a mudança.
Sons
perseguidores: barulhos ameaçadores fora de cena que representam o machismo e o
patriarcado.
4 cadeiras em cena, ao centro do palco
uma bacia/caldeirão.
3 mulheres ocupam as cadeiras. Entra uma
quarta mulher no palco. Confusa, hesitante, se dirige ao público.
(Recém-chegada entra assustada, com
corrente no pescoço por onde sangra.)
Recém-chegada: Socorro! Socorro!
As três mulheres a acolhem
(De fora do palco se escutam barulhos
assustadores.)
Sabedoria: Quem é você? O que te aconteceu?
Recém-chegada:
Esqueci meu nome
Ninguém mais me chama
Eu não me reconheço
Mas estou com medo
Algo me persegue
As três olham pra ela e trocam olhares
Amanhã: Acabou de chegar
Sabedoria: Fale de onde você vem?
Recém-chegada (ela se olha): Eu não sei. Estou suja, olha
só meu estado! Preciso me trocar.
Sabedoria: Acho que você não está se enxergando.
De onde você acha que esse sangue está vindo?
Recém-chegada: Acontece. Sempre aconteceu. De vez
enquando passa. Cresci escutando a minha mãe dizer que o sangue não pode
aparecer. Muito cuidado, é nojento, eram suas palavras. Teve uma vez que o
sangue passou e eu estava no trabalho, o meu chefe mandou recado, nem quis
falar comigo. “Cuide melhor de sua apresentação”. E eu estava dispensada.
Desculpa! Que vergonha! Preciso me trocar.
Amanhã: pelo visto não é de onde, mas de quando. Ela não sabe que
esse mundo de onde vem acabou.
Terror: ninguém te contou? Você pode estancar esse sangue todo,
tua dor pode acabar. Basta que você faça um sacrifício e aqui será o seu lugar.
Recém-chegada: Sacrifício?
Terror: Sacro-ofício.
Barulho assustador do lado de fora do
palco. A recém-chegada se encolhe. Amanhã, Sabedoria e Terror se viram na
direção do barulho e ficam na frente da recém-chegada como se formassem uma
barreira.
Sabedoria: Conhecemos esse algo que a persegue,
podemos protegê-la, mas não por muito tempo se ela não fizer um sacrifício.
(Para a recém-chegada) Você está vendo esse sangue? Você precisa lembrar de
onde ele vem.
Recém-chegada se olha, olha sua roupa
suja de sangue
Recém-chegada: e quem são vocês?
Amanhã:
Somos o próprio tempo
Eu sou o Amanhã
Que não tem medo do próprio sexo
Que não teme a próxima esquina
Os homens nos becos escuros
Eu sou o Amanhã
Para além dos homens
O futuro, quando mulheres, trans,
lésbicas e gays
Ocupam o lugar que quiseram no mundo
Terror:
Chegaste do passado
Vieste de um mundo que não existe mais
No teu mundo as mulheres sangram
Eu sou o Terror e com segurança te digo
Aqui homens tolos sangram mais
Sabedoria
Eu sou a sabedoria
Conheci a tua época
Que coragem vocês tinham!
Todes precisavam esconder
O feminino que seus corpos possuíam
Pouco importa se esse feminino
Tivesse pênis ou vagina
E eram quebrados como o teu corpo
Que não se enxerga como criação divina
Terror:
Cuidado com as palavras!
Divino para eles
Era um corpo feminino
Desde que feminino fosse para agradar
Olhos masculinos
E Deus ditando regras
Pra buceta em seu livro.
Todas (falas desencontradas):
Que deus?! Nem existe!
São deusas. Se foi criação só podem ser
deusas, bruxas, feiticeiras.
Recém-chegada se aproxima da bacia e olha com nojo
O que tem aqui?
Terror:
Ovos!
Ovos que esperam o seu sacrifício
Ovos para um novo mundo
Ovos de assassinos!
Sangue de oito homens
Para garantir a revolução de ontem
Sangue de oito homens
Para sustentar um futuro outro
Sangue de oito homens
Porque o presente é pouco.
Amanhã:
Bem vinda ao futuro
Somos livres
E com liberdade desejamos
Todas:
Livres, livres
Amanhã:
Você está assustada?
Não se sente mais mulher?
Mas o que é ser mulher?
Nada dura no tempo
Nada é definitivo
Cuidar, sangrar, parir,
Toda marca tem seu fim
o que existe hoje não existirá amanhã
Terror:
Liberdade não é o que se pensa
Tem um preço, como tudo
Tomamos de assalto
O modo de pensar o mundo
E isso quer dizer mais do que
Uma mulher em cada canto
O modo de pensar mudou
E outras configurações de corpos
Já não causam espanto
Morte ao machismo!
Trocamos sangue por sangue
Ofereça seu sacrifício
Para seu futuro ter início
Recém-chegada: Eu não sei do que vocês estão falando?
Eu só preciso de um absorvente! Vocês não entendem? Nunca menstruaram na vida?!
Amanhã: faz muito tempo
Sabedoria: nem me lembro mais
Terror: Não, eu acho que nunca.
Recém-chegada: Não sei mais quem sou, nem sei onde
estou, mas sei que vocês também não me conhecem. Fui feliz e amei, filhos
criei. Nunca fui dessas mulheres que pareciam mais é ter inveja do pênis.
Sabedoria com ar de tédio pega um livro e o joga
na bacia com sangue: Sigmund Freud
Recém-chegada: Eu procurei ser uma figura agradável
aos olhos alheios. Bonita e de voz doce. Uma boa companhia para entreter quem
estivesse junto.
Sabedoria com ar de tédio: A mulher é um sexo
decorativo e blá, blá, blá. Oscar Wilde (joga o livro na bacia com sangue)
Recém-chegada: E agora não sou mais jovem, não sou
mais fértil, ninguém me olha mais. E como o poeta dizia: beleza é fundamental
Sabedoria entediada: Vinícius de Moraes. (lança o
último livro na bacia com sangue)
Amanhã:
Eu não aguento mais
Repetir sempre os mesmos rituais
Para garantir um livre futuro
Antes de nós tinham nossas ancestrais
No princípio, a mãe
Não há um ser humano
Que não tenha saído
De um ventre bem barrigudo
Sabedoria:
Não é possível que você pense
Que esse sangue seja natural
De seu corpo de mulher
Você não percebe de onde
Ele está vindo?
A natureza já interrompeu o seu ciclo
E nenhum sangue te cobra mais
Não é possível que você não note
Onde empapa o sangue no teu corpo.
Recém-chegada
Sim...eu não sangro mais
Já passei da idade
Então, que sangue é esse?
É do meu corpo?!
(Novamente barulho de fora, dessa vez
parece mais próximo.)
Eu era desejada
E agora nada
O que resta de mim?
Amanhã:
Idade não é o problema
E sim esse olhar que faz
Com que você a tudo tema
Terror:
Não há mais tempo
Você não está vendo?
Tem algo que te persegue
Sacrifique oito homens
Antes que eles te peguem
Recém-chegada (gritando/assustada):
Quem são vocês?
Assassinas?
O que esperam de mim?
(grita) Alguém me ajuda!
Querem me matar!
Terror:
Sim, querem te matar
Mas não somos nós
Terei que te mostrar
A imagem do teu algoz
Bebendo do sangue
Que te vai esvaindo
Terror, que pega um espelho e coloca em
frente os olhos da Recém-chegada
A Recém-chegada grita horrorizada
Recém-chegada
O que é isso em meu pescoço?
Quem colocou?
Está me machucando!
Sabedoria: você não sabe?
Recém-chegada:
Era um colar!
Ele me disse!
Era por nosso amor!
Terror:
Olhe um pouco mais
Recém-chegada
Eles estão bebendo do meu sangue
O meu chefe
O meu marido
E até mesmo o meu pai
Me fizeram achar esse cabresto
Um belo colar
(primeiro momento disruptivo da
recém-chegada)
Recém-chegada (após a primeira catarse)
Eu já fui violada
No que aprendi ser lar
Eu fui escravizada
E ensinada
Que era uma forma de amar
Mulher sente de perna fechada
Me disseram
E homem precisa ser forte
A fragilidade ocultar
Amar como proprietário
A própria prole ignorar
E ter coragem até de matar
Sabedoria:
Ela lembrou
Terror:
não há futuro
Sem sacrificar
Esse masculinismo
Que contamina tudo
Vamos Recém-chegada
O sangue que você deu foi tanto
E por décadas
Que exigir que você dê o sangue
De oito homens é quase nada
Sangre esse espelho
Para ser libertada
(Barulhos um pouco mais baixos fora do
palco)
Recém-chegada:
Por algum motivo
Quando começaram os calorões
E o meu cabelo branqueou
Eu fugi desses senhores
Algo em mim despertou
E não quis mais dar o meu corpo
Meu corpo
MEU CORPO!
É MEU!
(Barulho muito alto ameaçador)
(Recém-chegada pega a faca e vai para o
palco na direção do barulho. Catarse final)
Recém-chegada:
Meu corpo!
Ninguém mais toca
Eu digo Não
Quantos nãos eu quiser dizer
(faz movimentos de golpes com a faca, e
a lateral do palco sangra de volta)
Sangrem desgraçados!
Esse sangue não é meu
Nunca mais o meu sangue
(tira as correntes do pescoço)
A partir de agora
O primeiro que me tocar morre
Seja pai, chefe ou marido
Se me ameaçar, morre até mesmo amigo
Sabedoria, Terror e Amanhã servem-se de
taças de sangue
Amanhã
Brindemos!
O futuro chega todos os dias
Venha, mulher, estamos juntas (se
dirigindo à recém-chegada)
Esse horizonte também é teu.
Terror
Não importa se em copo pequeno
Ou em baldes, beberemos!
Com o suco de nossos agressores nos
banharemos!
Sabedoria
Um bocado de arroto de macho peçonhento
E um punho espremido de metido a valente
Gritos e ofensas cozidas em óleo
fervente
Colhões bem picadinhos com pitada de
tormento
E mais meio litro de sangue quente
Eis a boa receita para uma sangria
Saúde!
*Texto escrito para o 27° Festival Cenas Curtas - Galpão Cine Horto (Direção de Lira Ribas).
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