sábado, 26 de setembro de 2026

SANGRIA (DRAMATURGIA)








SANGRIA*

Taiasmin Ohnmacht

 

Cena:

Um aposento no futuro. Futuro do mundo e da vida de uma mulher. Um futuro pós patriarcado.

 

Personagens:

Recém-chegada: mulher no climatério, colonizada pelo discurso machista. Chega no futuro de toda mulher – o envelhecimento e a menopausa – e chega em um futuro pós-revolução feminista

 

Sabedoria: uma das três entidades que garantem esse futuro. Tem consciência de como era na época da Recém-chegada, e do conhecimento que mantinha as mulheres subjugadas.

 

Amanhã: Uma das três entidades que garantem o futuro. Marca a diferença entre os tempos.

 

Terror: Uma das três entidades que garantem o futuro. O terror sustenta a necessidade revolucionária e de sacrifício para a mudança.

 

Sons perseguidores: barulhos ameaçadores fora de cena que representam o machismo e o patriarcado.


 

 

4 cadeiras em cena, ao centro do palco uma bacia/caldeirão.

3 mulheres ocupam as cadeiras. Entra uma quarta mulher no palco. Confusa, hesitante, se dirige ao público.

 

(Recém-chegada entra assustada, com corrente no pescoço por onde sangra.)

 

Recém-chegada: Socorro! Socorro!

 

As três mulheres a acolhem

(De fora do palco se escutam barulhos assustadores.)

 

Sabedoria: Quem é você? O que te aconteceu?

 

Recém-chegada:

Esqueci meu nome

Ninguém mais me chama

Eu não me reconheço

Mas estou com medo

Algo me persegue

 

As três olham pra ela e trocam olhares

Amanhã: Acabou de chegar

Sabedoria: Fale de onde você vem?

 

Recém-chegada (ela se olha): Eu não sei. Estou suja, olha só meu estado! Preciso me trocar.

Sabedoria: Acho que você não está se enxergando. De onde você acha que esse sangue está vindo?

Recém-chegada: Acontece. Sempre aconteceu. De vez enquando passa. Cresci escutando a minha mãe dizer que o sangue não pode aparecer. Muito cuidado, é nojento, eram suas palavras. Teve uma vez que o sangue passou e eu estava no trabalho, o meu chefe mandou recado, nem quis falar comigo. “Cuide melhor de sua apresentação”. E eu estava dispensada. Desculpa! Que vergonha! Preciso me trocar.

Amanhã: pelo visto não é de onde, mas de quando. Ela não sabe que esse mundo de onde vem acabou.

Terror: ninguém te contou? Você pode estancar esse sangue todo, tua dor pode acabar. Basta que você faça um sacrifício e aqui será o seu lugar.

 

Recém-chegada: Sacrifício?

 

Terror: Sacro-ofício.

Barulho assustador do lado de fora do palco. A recém-chegada se encolhe. Amanhã, Sabedoria e Terror se viram na direção do barulho e ficam na frente da recém-chegada como se formassem uma barreira.

 

Sabedoria: Conhecemos esse algo que a persegue, podemos protegê-la, mas não por muito tempo se ela não fizer um sacrifício. (Para a recém-chegada) Você está vendo esse sangue? Você precisa lembrar de onde ele vem.

 

Recém-chegada se olha, olha sua roupa suja de sangue

 

Recém-chegada: e quem são vocês?

 

Amanhã:

Somos o próprio tempo

Eu sou o Amanhã

Que não tem medo do próprio sexo

Que não teme a próxima esquina

Os homens nos becos escuros

Eu sou o Amanhã

Para além dos homens

O futuro, quando mulheres, trans, lésbicas e gays

Ocupam o lugar que quiseram no mundo

 

Terror:

Chegaste do passado

Vieste de um mundo que não existe mais

No teu mundo as mulheres sangram

Eu sou o Terror e com segurança te digo

Aqui homens tolos sangram mais

 

Sabedoria

Eu sou a sabedoria

Conheci a tua época

Que coragem vocês tinham!

Todes precisavam esconder

O feminino que seus corpos possuíam

Pouco importa se esse feminino

Tivesse pênis ou vagina

E eram quebrados como o teu corpo

Que não se enxerga como criação divina

 

Terror:

Cuidado com as palavras!

Divino para eles

Era um corpo feminino

Desde que feminino fosse para agradar

Olhos masculinos

E Deus ditando regras

Pra buceta em seu livro.

 

Todas (falas desencontradas):

Que deus?! Nem existe!

São deusas. Se foi criação só podem ser deusas, bruxas, feiticeiras.

 

Recém-chegada se aproxima da bacia e olha com nojo

 

O que tem aqui?

 

Terror:

Ovos!

Ovos que esperam o seu sacrifício

Ovos para um novo mundo

Ovos de assassinos!

Sangue de oito homens

Para garantir a revolução de ontem

Sangue de oito homens

Para sustentar um futuro outro

Sangue de oito homens

Porque o presente é pouco.

 

Amanhã:

Bem vinda ao futuro

Somos livres

E com liberdade desejamos

 

Todas:

Livres, livres

 

 

Amanhã:

Você está assustada?

Não se sente mais mulher?

Mas o que é ser mulher?

Nada dura no tempo

Nada é definitivo

Cuidar, sangrar, parir,

Toda marca tem seu fim

o que existe hoje não existirá amanhã

 

Terror:

Liberdade não é o que se pensa

Tem um preço, como tudo

Tomamos de assalto

O modo de pensar o mundo

E isso quer dizer mais do que

Uma mulher em cada canto

O modo de pensar mudou

E outras configurações de corpos

Já não causam espanto

Morte ao machismo!

Trocamos sangue por sangue

Ofereça seu sacrifício

Para seu futuro ter início

 

Recém-chegada: Eu não sei do que vocês estão falando? Eu só preciso de um absorvente! Vocês não entendem? Nunca menstruaram na vida?!

Amanhã: faz muito tempo

Sabedoria: nem me lembro mais

Terror: Não, eu acho que nunca.

 

Recém-chegada: Não sei mais quem sou, nem sei onde estou, mas sei que vocês também não me conhecem. Fui feliz e amei, filhos criei. Nunca fui dessas mulheres que pareciam mais é ter inveja do pênis.

Sabedoria com ar de tédio pega um livro e o joga na bacia com sangue: Sigmund Freud

Recém-chegada: Eu procurei ser uma figura agradável aos olhos alheios. Bonita e de voz doce. Uma boa companhia para entreter quem estivesse junto.

Sabedoria com ar de tédio: A mulher é um sexo decorativo e blá, blá, blá. Oscar Wilde (joga o livro na bacia com sangue)

Recém-chegada: E agora não sou mais jovem, não sou mais fértil, ninguém me olha mais. E como o poeta dizia: beleza é fundamental

Sabedoria entediada: Vinícius de Moraes. (lança o último livro na bacia com sangue)

 

Amanhã:

Eu não aguento mais

Repetir sempre os mesmos rituais

Para garantir um livre futuro

Antes de nós tinham nossas ancestrais

No princípio, a mãe

Não há um ser humano

Que não tenha saído

De um ventre bem barrigudo

 

Sabedoria:

Não é possível que você pense

Que esse sangue seja natural

De seu corpo de mulher

Você não percebe de onde

Ele está vindo?

A natureza já interrompeu o seu ciclo

E nenhum sangue te cobra mais

Não é possível que você não note

Onde empapa o sangue no teu corpo.

 

Recém-chegada

Sim...eu não sangro mais

Já passei da idade

Então, que sangue é esse?

É do meu corpo?!

 

(Novamente barulho de fora, dessa vez parece mais próximo.)

 

Eu era desejada

E agora nada

O que resta de mim?

 

Amanhã:

Idade não é o problema

E sim esse olhar que faz

Com que você a tudo tema

 

Terror:

Não há mais tempo

Você não está vendo?

Tem algo que te persegue

Sacrifique oito homens

Antes que eles te peguem

 

Recém-chegada (gritando/assustada):

Quem são vocês?

Assassinas?

O que esperam de mim?

(grita) Alguém me ajuda!

Querem me matar!

 

Terror:

Sim, querem te matar

Mas não somos nós

Terei que te mostrar

A imagem do teu algoz

Bebendo do sangue

Que te vai esvaindo

 

Terror, que pega um espelho e coloca em frente os olhos da Recém-chegada

A Recém-chegada grita horrorizada

 

Recém-chegada

O que é isso em meu pescoço?

Quem colocou?

Está me machucando!

 

Sabedoria: você não sabe?

 

Recém-chegada:

Era um colar!

Ele me disse!

Era por nosso amor!

 

Terror:

Olhe um pouco mais

 

Recém-chegada

Eles estão bebendo do meu sangue

O meu chefe

O meu marido

E até mesmo o meu pai

Me fizeram achar esse cabresto

Um belo colar

 

(primeiro momento disruptivo da recém-chegada)

 

Recém-chegada (após a primeira catarse)

 

Eu já fui violada

No que aprendi ser lar

Eu fui escravizada

E ensinada

Que era uma forma de amar

 

Mulher sente de perna fechada

Me disseram

E homem precisa ser forte

A fragilidade ocultar

Amar como proprietário

A própria prole ignorar

E ter coragem até de matar

 

Sabedoria:

Ela lembrou

 

Terror:

não há futuro

Sem sacrificar

Esse masculinismo

Que contamina tudo

Vamos Recém-chegada

O sangue que você deu foi tanto

E por décadas

Que exigir que você dê o sangue

De oito homens é quase nada

Sangre esse espelho

Para ser libertada

 

(Barulhos um pouco mais baixos fora do palco)

 

Recém-chegada:

Por algum motivo

Quando começaram os calorões

E o meu cabelo branqueou

Eu fugi desses senhores

Algo em mim despertou

E não quis mais dar o meu corpo

Meu corpo

MEU CORPO!

É MEU!

 

(Barulho muito alto ameaçador)

 

(Recém-chegada pega a faca e vai para o palco na direção do barulho. Catarse final)

 

Recém-chegada:

Meu corpo!

Ninguém mais toca

Eu digo Não

Quantos nãos eu quiser dizer

(faz movimentos de golpes com a faca, e a lateral do palco sangra de volta)

Sangrem desgraçados!

Esse sangue não é meu

Nunca mais o meu sangue

(tira as correntes do pescoço)

A partir de agora

O primeiro que me tocar morre

Seja pai, chefe ou marido

Se me ameaçar, morre até mesmo amigo

 

Sabedoria, Terror e Amanhã servem-se de taças de sangue

 

Amanhã

Brindemos!

O futuro chega todos os dias

Venha, mulher, estamos juntas (se dirigindo à recém-chegada)

Esse horizonte também é teu.

 

Terror

Não importa se em copo pequeno

Ou em baldes, beberemos!

Com o suco de nossos agressores nos banharemos!

 

Sabedoria

Um bocado de arroto de macho peçonhento

E um punho espremido de metido a valente

Gritos e ofensas cozidas em óleo fervente

Colhões bem picadinhos com pitada de tormento

E mais meio litro de sangue quente

Eis a boa receita para uma sangria

Saúde!

*Texto escrito para o 27° Festival Cenas Curtas - Galpão Cine Horto (Direção de Lira Ribas).