sexta-feira, 14 de maio de 2021

As sevícias de Pai Francisco

 Pai Francisco entrou na roda

Tocando seu violão

Tá-ram-ram-tam-tão

E vem de lá seu delegado

Pai Francisco foi pra prisão


Como ele vem

Todo requebrado

Parece um boneco

Desengonçado


Por que Pai Francisco foi preso? Por ser um líder espiritual de uma religião de matriz africana ou por tocar violão? 

Talvez pelos 2 motivos.

No início do século 20 tanto o samba quanto o violão nas mãos de negros eram considerados sinal de vadiagem, e davam cadeia.

Mas não bastou prender, foi preciso torturar. Tortura policial, violência de Estado cantada na voz de gerações de lindas criancinhas.

Tudo natural e corriqueiro como é pra quem hoje ainda não se choca com as chacinas nas favelas e comunidades do país. Brasil, meu brasileiro. O que vem depois? Desafio vocês a procurarem o significado de inzoneiro.

Mas tudo isso porque acordei com as sevícias impostas ao Pai Francisco tocando na minha cabeça. Não sei por qual motivo. Essa canção constava no meu livro de música na época do colégio, depois a reencontrei quando minha filha se tornou fã da galinha pitadinha e, sim, ela foi uma das lindas criancinhas ensinadas desde de cedo a nossa brasilidade instituída.

Mas faz anos que não escuto a música, por que agora?

Talvez porque ontem fui ao protesto contra a chacina no Jacarezinho, e fiquei um pouco preocupada que houvesse alguma repressão  policial, li que no dia anterior estudantes foram presos por protestarem contra o ministro da educação, e vou percebendo os riscos que corremos, cada vez mais. 

Ontem me entregaram um panfleto: "A polícia e os governos não nos protegem!" 

Pai Francisco nos ensina isso, desde criancinhas.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

AMORES DIGITAIS

 




Taiasmin Ohnmacht


I

eu escrevo e te tenho

mesmo quando não estás

quiseste sair

e eu fiquei me apegando

a palavras

que a barra de rolagem levou

 

II

o teu olhar é dissimulado

o meu, fugidio

bocas que se querem

e mentem

união

prazer

 

III

espero numa palavra

a saliva que não poderás me dar

que os teus dedos

se acomodem em meu corpo

ao digitarem a eterna pergunta:

“Como vai?”

 

IV

tentei te acomodar em mim

reduzi o passo

retardei a vida

para te esperar

tentei encontrar lugar

para o que seria o amanhã

contigo

mas o teu tempo

não é o meu

e nunca será

meu amigo


domingo, 21 de fevereiro de 2021

VERÃO PASSADO

 


Taiasmin Ohnmacht

 

            Um dia de sol. Ideal para um banho de mar, vou deixar as ondas me levarem e me devolverem, vou ser um corpo vivo-morto, ser menina de novo, criança nos braços de Yemanjá. Se me arrumar logo despisto meu filho, não preciso de ninguém me cuidando nas brincadeiras que sei desde minha infância.

“Mãe, aonde você vai?”

            Merda! Não fui rápida o suficiente.

            No olhar do meu filho o reflexo de outras paredes e mobílias. Vejo a paisagem da janela, os edifícios escurecidos do centro da cidade e o sol pálido.

“Mãe, que roupa é essa?”

            Sinto um pouco de frio em meu maiô e o mar que não está lá fora, já não é atraente. Há um espaço entre o olhar confuso dele e o meu, e a distância é maior do que a sala onde estamos. Eu sei que um dia vou me perder e perdê-lo. O meu filho me olha com pena e tristeza.

            Invento estar provando a roupa de banho para o próximo verão, ele murmura que falta muito ainda.

“Tenho saudade do mar.”

            Ele não responde nada.

            Tenho incontáveis saudades e me apego a cada uma delas sabendo que enquanto sentir falta é porque me lembro, tenho medo do dia em que encontrar vazio em tudo. Dizem que isso vem antes da morte, mas acho que quando chegamos neste ponto a morte já nos encontra mortos.

            Jamila chega e me encontra na cama. Resolvi deitar, tenho medo de me perder no apartamento. A menina acha engraçado me ver embaixo das cobertas no meio da tarde, levanta as cobertas sem cerimônias para aconchegar o pequeno corpo ao meu, ela me descobre de maiô e dá risada. O que sei? Que é minha neta, meu filho está com ela, não vem sempre, mora com a mãe. Ainda me lembro.

“Eu também posso colocar meu biquine, vovó?”

            Por que ela teria biquini na minha casa? Sim, agora eu me lembro que não estou no litoral e é outono, mas desisti de compreender mais do que isso basta lembrar, o pai dela que se vire com a história do biquini, eu só quero saber do sorriso de Jamila.

“Sim! Vamos fazer uma bela dupla!”

 




quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A BALA PERDIDA

 



Taiasmin Ohnmacht

A bala perdida

Há bala perdida

Abala medida

A lábia maldita 

Veneno leitoso

─ Crianças, cuidem-se das balas de estranhos.


sábado, 12 de dezembro de 2020

VOZES

 



Taiasmin Ohnmacht


Qual é a voz pública da poesia?
É a que passa e fala:
- Vai se fudê!
Pontuada por risadas de
Vírgulas, interrogações, exclamações
É a batida de percussão
No fim de tarde redentor
É o ritmo das vassouras nas calçadas públicas
E um transeunte que quebra o varrer
Pulando pianinho
É o feirante gritando as belezas do melão
Do morango
Do abacaxi
Que é da terra
Dessa terra
Na qual a voz pública
E o homem público
Não se encontram
Nos mesmos lugares

*Publicado originalmente no site A voz públlica da poesia (http://avozpublicadapoesia.blogspot.com/2018/03/vozes.html)

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

E OS OLHOS JÁ ESTAVAM PERDIDOS


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Sentado em uma cadeira incômoda, Daniel pensa que nem para morrer tem sorte. Espera pela partida de sua tia, que pode dar-se a qualquer momento. Ela está na UTI e ele em uma visita só-para-constar. Enfisema pulmonar. Não é uma doença genética. Até nisso a família lhe foi falha. Mesmo assim, foi visitar a insignificante tia, anda tão pesado que não precisa carregar mais as acusações maternas de negligência com os parentes.

            Sente uma indiferença libertadora frente à morte. Sobretudo à sua. Não há coisa alguma que ela possa tirar-lhe, na verdade o libertaria de uma série de fracassos e frustrações. Daniel pensa no Dilúvio, se fosse mais do que um arroio, poderia resolver seus problemas ali mesmo, afinal passa bem em frente ao hospital. O Guaíba seria uma boa solução, sendo rio ou não, mas falta-lhe energia para andar até lá.

            Desanimado, pensa na rotina de trabalho humilhante que tem pela frente, escrever textos inúteis sobre esportes pouco importantes e que certamente serão severamente criticados pelo chefe de redação. Ir para casa não é melhor; enfrentar a ausência afetiva da mulher, que tem um amante ou procura por um. O filho, único motivo de alegria que sobrara, em intercâmbio na Europa, já dera sinais que não voltaria tão cedo.

            Daniel levanta-se do banco, fim de visita e a tia continua com um fio de vida. Ele deseja que não dure mais uma semana, senão será forçado a uma nova encenação de apreço familiar. Olha para a porta de saída do hospital e vê o dia ensolarado zombar de sua insignificância. Sente-se um afogado debatendo-se por um sopro de vida.

            Tudo ainda muito branco. Abre os olhos, não é o único que olha. Uma enfermeira o olha com preocupação, mas tem certeza de que há um par de olhos a mais na sala onde estão só os dois. Esforça-se para sentar e tem a leve impressão de fazer isso com mais facilidade do que poderia supor.

─ Calma, levanta devagar senão o senhor pode ter uma nova vertigem.

─ Eu não sei o que houve. Estava saindo do hospital.

─ O senhor desmaiou próximo à recepção. Mas sua pressão está bem e a glicose também. Sem qualquer alteração.

            Daniel quer sair dali, mas também tem a esperança de estar com algum grave mal. Surpreende-se olhando para os seios da enfermeira que o ajuda a se levantar. Ela percebe seu olhar.

─ Bom, já estás bem melhor. Tem uma lancheria no segundo andar, passa lá e come alguma coisa. Se tiveres um novo desmaio é melhor consultar um médico.

            O que mais perturba Daniel é perceber que não olhou para os seios dela, o que de fato ocorrera é uma nova percepção, algo que ele não consegue definir bem, ele viu a si mesmo olhar para os seios dela como se fosse apenas um observador da cena.

            Anda até o carro sentindo-se fora de esquadro. É como se não fizesse parte do mundo, mas ao mesmo tempo transita pela vida com a mesma desenvoltura de sempre. A mão de sempre coloca a chave na ignição, o pé esquerdo na embreagem. Ambos estranhos. Antes de partir, olha-se no espelho retrovisor e se assusta. É como entrar em uma daquelas cabines para provar roupas nas lojas. Lembra-se de algumas que tinham espelhos em duas paredes paralelas que multiplicavam a imagem ao infinito. Ele se olha e vê a si e a alguém que o olha e ele se vê nesse outro olhar. Aterrorizado, Daniel fecha os olhos e encosta-se no banco com força. Bateu a cabeça quando desmaiou no hospital, ele pensa procurando encontrar uma explicação. Algo em seu cérebro se soltou e apagou. Ou se acendeu. É surpreendido pelo toque do próprio celular.

─ Daniel, por onde anda? A gente tem que fechar as pautas da próxima edição.

            Silêncio, não sabe o que responder ao chefe. Uma mão que já não reconhece, engata a marcha e, com a ajuda de um corpo que fica cada vez mais estranho, dá partida ao carro em direção à redação do jornal.

            Olha a tudo e todos com um espanto que não é seu, ele mesmo só se espanta com a estranheza do corpo e com voracidade do outro olhar. Meia hora passada na frente do computador, sem uma palavra escrita. Daniel precisa produzir um texto sobre uma partida de futebol entre dois times do interior. Nunca apreciou futebol ou qualquer outro esporte, durante longo tempo sonhou em ser repórter investigativo, agora, com dez anos de trabalho pela frente ainda, sonha apenas com a aposentadoria.

            Decide escrever sobre o inusitado de suas sensações, o editor chefe que espere. Qualquer coisa, alegaria um mal-estar e iria embora mais cedo, mas quando se posiciona para digitar, vê os olhos lerem com avidez o material de suporte que recebeu para escrever o pequeno texto. Trata-se de uma lista de acontecimentos comuns em qualquer jogo, marcados pela contagem de tempo. Aos 12 minutos, escanteio; aos 23 minutos, reposição da bola; aos 30 minutos falta. Daniel percebe uma animação que o transcende e os dedos, que não lhe pertencem mais, digitam um texto de mais de 400 caracteres e o enviam ao chefe de redação.

─ Que piada é essa Daniel? Está tentando derrubar nosso cronista? Eu te peço um texto de 50 a 70 caracteres, apenas uma nota! E tu me vem com uma crônica! Volta lá e pratica a salutar arte do corte.

            Antes de voltar para a sua mesa, o seu chefe volta a chama-lo:

─ Mas tenho que admitir, é o melhor texto que já escreveste. Parabéns! Usa esse teu talento no próximo grenal, aí sim te consigo espaço.

            Grenal? A vontade de morrer de Daniel é substituída por raiva, uma raiva de algo dentro de si que não reconhece e que usurpa seu lugar perante os outros. Vai para casa dirigindo o carro. Sim, ele. Não a coisa que o habita. Pela primeira vez em muito tempo, dirige com energia e determinação.

            O que pode fazer? Procurar um analista? Um terreiro de umbanda? Pesquisar no google? Chega em casa e encontra sua mulher na cozinha preparando a janta. Desleixada, como de costume, o olha com uma expressão de tédio. Logo observa seu olhar de gula percorrer o corpo dela. Ela tagarela sobre sua rotina de advogada, os processos em que trabalha e os clientes que tem. Daniel permanece calado porque a boca ainda lhe pertence, mas percebe um interesse inédito pelos assuntos da mulher. Perdera os ouvidos.

            À noite, na cama, começa a refletir na guerra que vive. O inimigo o pegou de surpresa e conquistou vários territórios de assalto, agora ele tem que pensar em como retomar seus domínios. Não gosta daquela presença, precisa lutar por si e por seu corpo. Pela manhã, Daniel fica observando a esposa se arrumar para o trabalho, sente atração pelo corpo de mulher de meia-idade.

            Na semana seguinte, Daniel é expectador de sua rotina de trabalho, toma cafezinho com os colegas, discute ativamente as pautas da seção de esportes e escreve com prazer os textos que lhe são exigidos. Luta para retomar o controle, tenta cruzar os braços, imobilizar os dedos no teclado, mas tudo o que consegue é um ou outro erro ortográfico, nada mais. Decide retornar ao hospital, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que começou lá. Talvez um espírito, talvez um demônio tenha se apossado de seu corpo e mudado sua trajetória de vida. Talvez uma máquina de radiografia defeituosa tenha vazado radiação, alterando seu DNA.

            Daniel entra no carro, não sabe o que fará quando chegar ao hospital, mas sabe que deve ir para lá. Estaciona na garagem de seu prédio, sobe os seis andares de elevador. Abre a porta, a mulher novamente está na cozinha, vai até ela e dá um apaixonado beijo. Fazem sexo ali mesmo, como não acontecia há vinte anos. No início ela resiste um pouco, mas depois corresponde com igual desejo.

            Na manhã seguinte, a esposa abre os olhos e vê o marido já acordado. Aninha-se ao corpo dele e fala:

─ Daniel, eu ainda te amo. E me surpreendo com isso.

Ele beija os cabelos dela e sorri, já está começando a se acostumar com esse nome.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Pequenos II

 Prefeitura distribui larvas de joaninha para combater pragas em jardins  particulares de Paris - Meio Ambiente


Taiasmin Ohnmacht


I


a força encobre a fraqueza

a impotência como única certeza

todos comandados em dança

                                        de marionetes

o poder resolve quem será descarte

da crueza e da barbaridade


II


na dor a certeza de meu corpo

nunca estive tão perto da natureza

ínfima diferença entre mim e as formigas


III


enquanto divago

caminho pelo mato

um jacaré afogado

faz sinais de fogo

com seu rabo