Taiasmin Ohnmacht
Um dia de sol. Ideal para um banho
de mar, vou deixar as ondas me levarem e me devolverem, vou ser um corpo
vivo-morto, ser menina de novo, criança nos braços de Yemanjá. Se me arrumar
logo despisto meu filho, não preciso de ninguém me cuidando nas brincadeiras
que sei desde minha infância.
“Mãe,
aonde você vai?”
Merda! Não fui rápida o suficiente.
No olhar do meu filho o reflexo de
outras paredes e mobílias. Vejo a paisagem da janela, os edifícios escurecidos
do centro da cidade e o sol pálido.
“Mãe,
que roupa é essa?”
Sinto um pouco de frio em meu maiô e
o mar que não está lá fora, já não é atraente. Há um espaço entre o olhar
confuso dele e o meu, e a distância é maior do que a sala onde estamos. Eu sei
que um dia vou me perder e perdê-lo. O meu filho me olha com pena e tristeza.
Invento estar provando a roupa de
banho para o próximo verão, ele murmura que falta muito ainda.
“Tenho
saudade do mar.”
Ele não responde nada.
Tenho incontáveis saudades e me
apego a cada uma delas sabendo que enquanto sentir falta é porque me lembro,
tenho medo do dia em que encontrar vazio em tudo. Dizem que isso vem antes da
morte, mas acho que quando chegamos neste ponto a morte já nos encontra mortos.
Jamila chega e me encontra na cama.
Resolvi deitar, tenho medo de me perder no apartamento. A menina acha engraçado
me ver embaixo das cobertas no meio da tarde, levanta as cobertas sem
cerimônias para aconchegar o pequeno corpo ao meu, ela me descobre de maiô e dá
risada. O que sei? Que é minha neta, meu filho está com ela, não vem sempre,
mora com a mãe. Ainda me lembro.
“Eu
também posso colocar meu biquine, vovó?”
Por que ela teria biquini na minha
casa? Sim, agora eu me lembro que não estou no litoral e é outono, mas desisti
de compreender mais do que isso basta lembrar, o pai dela que se vire com a
história do biquini, eu só quero saber do sorriso de Jamila.
“Sim!
Vamos fazer uma bela dupla!”
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