terça-feira, 4 de junho de 2013

PEQUENA CANÇÃO

Taiasmin Ohnmacht
 
 
Um amor de homem.
Que sorte
Encontrá-lo na madrugada,
Sem nada,
Ninguém para chamá-lo de seu.
É meu,
Seu coração e seu jardim.
Enfim,
Um amor e uma cabana
Sem grana.
Esse amor é um sacrifício,
Um vício.
Quero ver na hora da fome,
Que sobre
A cama toda revirada.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Trocando em Miúdos


 
            Tudo o que aquele rapaz fazia tinha um tom poético. Com a voz perfeitamente afinada, grave e suave, ele transformava cada canção em uma declaração de amor. Às vezes, Raquel se emocionava, mas procurava não demonstrar, mantendo a postura de professora de violão e canto. O mínimo de dignidade, pensava. No entanto, seu olhar enamorado percorria os dedos longos e delicados dele, a curvatura de suas costas, enquanto segurava o violão, os olhos pequenos e semicerrados, cantando com prazer uma música de Noel Rosa. Raquel pegou o violão para mostrar a ele um acorde e viu a aliança em seu próprio dedo. Símbolo de uma união. A aliança fazia com que a atração por Tiago parecesse patética. Era Raul quem ela encontraria quando chegasse em casa, era com ele que dividia o cotidiano. O rapaz, a quem ela sorvia com os olhos, tinha apenas vinte anos e era cheio de vida! E a vida que vivo agora? Pensou Raquel.

            Uma vida de silêncios. Eles faziam percursos semelhantes pelos cômodos da casa, mas em mundos paralelos. Raros encontros. Aos quarentas e três anos, Raquel nada mais sabia sobre sua feminilidade. Raul não a confirmava, nem em olhares, nem em desejo. O sexo era uma burocracia mensal. Todos os movimentos previsíveis. Muito diferente de quando se conheceram. Ela estava terminando a faculdade de música e ele era um recém-formado em contabilidade. A maior afinidade que tinham era o desejo urgente de ficarem juntos. Quando haviam se perdido?

            Agora, mesmo contra sua vontade, insistia em encontrar seu desejo em um corpo que acabava de sair da adolescência. Com Tiago, encontrava afinidades musicais, Toquinho, Paulinho da Viola, Chico Buarque. Ele ainda gostava de música clássica e estudava sociologia, segundo interesse de Raquel, depois da música. Enquanto Tiago cantava Dindi, de Tom Jobim, Raquel pensava que era tudo ideal demais. A vida não era assim. A realidade eram as contas a pagar e a imensa dívida de mais de uma década de relacionamento com Raul. É claro que o marido tinha suas qualidades. Ele era muito carinhoso, bem humorado e a apoiava em suas iniciativas. Mas, de repente, a vida se tornara previsível demais. Paixão não combinava com o cotidiano.

            Raquel foi despertada de seus pensamentos com o toque de um celular. Tiago largou o violão prontamente para atender a ligação. Ele saiu da sala e, alguns minutos depois, retornou. Ruborizado, fechou a porta e gritou:

- Yes!

Olhou para Raquel sem jeito. Empolgado, esquecera de sua presença.

- Desculpe, eu esperei muito por esse telefonema. Pensei que ela não fosse mais me ligar.

            Raquel compreendeu. Lembrou que já teve vinte anos e que não tinha mais. Sorriu para aquele rapaz encantador, mas que não cantava para ela. Não sentiu ciúmes, mas uma ponta de inveja, da moça e de Tiago. Levantou-se e começou a guardar seu violão. Em sua cabeça, Chico Buarque cantava Trocando em Miúdos. Raquel olhou o relógio, estava na hora de ir para casa.

 

domingo, 12 de maio de 2013

Inferno

Taiasmin Ohnmacht
 
Vai, peito, sangra!
Sangra pelo crime que cometeste
Sangra pela tragédia a que disseste amém
Sangra pela morte vinda do Norte
Sangra pelo destino vindo do Sul
Encontro tétrico no meu coração.
Tragédia vil armada pelos anjos
Patético papel reservado para mim
Onde estou?
Quem sou?
Venha, inferno!
Cobre o imposto que devo
Por ter a língua solta
E o coração pequeno
As labaredas da minha alma
Queimam muito mais
Que o fogo verdadeiro.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Súplica

Taiasmin Ohnmacht


Resultado de imagem para mãos despedida


A minha vida não tem remédio,
sangra ferida de tédio.
Vozes ecoam em minh’alma,
pedem um passado sem volta,
e eu espero...
espero...
te quero...

A cada manhã um novo tormento,
a cada passo, só vejo cimento.
Não há natureza sem tua presença,
o céu pesado guarda minha sentença,
no escuro...
te procuro...
juro...

Venha prá mim, minha fortaleza,
invada minha casa, me traga certezas,
apareça radiante como uma manhã,
transforme essa alma febril em sã
e me ame...
me ame...
me ame...

sábado, 27 de abril de 2013

Das liberdades II

Taiasmin Ohnmacht
 
Liberdade
para ser
qualquer uma
transitando por muitos eus,
de desejos que gritam
através de mim.

Liberdade
para falar
com muitas vozes
de minhas mil bocas,
infinitos idiomas de meu coração,
torre de babel em meu peito.

Liberdade
para pensar
e poder contradizer
cada palavra que disser,
jurando quebrar
cada jura que fizer.

Liberdade
para que a vida
seja possível
e indefinível...

Das liberdades

Taiasmin Ohnmacht

Liberdade
para ser alegre,
rir de tolices,
poder ser leve.

Liberdade
para ser triste,
ter na alma dor que não existe,
mas que insiste em não ser breve.

Liberdade
para ser feliz
em conta-gotas no cotidiano,
em momentos fugazes, como um oceano.

Liberdade
para ser calada,
quando a saudade me deixar muda
e a caneta escrever nada.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Voragem


Taiasmin Ohnmacht


Em minha força a flacidez rompe em entranhas de soluços assustados. O tempo tudo pode e tudo leva com o vento morno de um inferno que me come pelo pé. Não me importo, pois do solo surgem brotos de mim mesma com tempero de cebolinha e o meu sabor é incrível. O céu desaba sobre meus cabelos em galhos para beijar o hálito de terra molhada. Sou a própria língua do mundo fecunda por pênis titânicos.
Um sussurro me corta em duas. Confusa, uma parte se perde. A solidão irada grita blasfêmias em meu rosto, enquanto archotes se inclinam em sinal de respeito. A vergonha me faz entrar em um buraco de minhoca, mas ele está vazio.
Enfim, deito na laje fria para a digestão dos vermes. E não sou mais uma, nem duas, mas muitas, rastejando viva.