quinta-feira, 25 de junho de 2015

ALGUNS PONTOS

Taiasmin Ohnmacht


Vivo quase assim
Sou o meio, nunca o fim
E se algo começou
Não foi aqui.

Tenho um amigo que se chama Messias
Certo dia, me salvou de um retiro
E me levou pro motel Botafogo
Que alívio!


Não sei se me caso
Ou se belisco a bunda
Dos homens que passam
Tenho alguns pontos A à Z
E nenhum cabaço
Nem vergonhas
Nem temores


Fofocas, sutiãs e salto alto
Queimo com palitos de fósforo
Emprestados
Dizem que tenho um namorado
Mas ainda gosto do Messias
E do motel

Tenho pernas e umbigo
Sabes o que há comigo?
Se souberes me conta ao ouvido
Quero me perder em segredos

Néctar nebuloso
Mareja teus olhos castanhos
Sou náufraga em águas estranhas
Mas repleta desse olhar


Figuras me cobram
Forma e fundo
Vá cobrar outro, ô peste!
Não tenho medo de cobras.

Tenho uma ferida que me fode
E fode

quinta-feira, 18 de junho de 2015

quarta-feira, 10 de junho de 2015

REVEILLON

 
 
 
Taiasmin Ohnmacht

 

ROGÉRIO

 

Eram duas da tarde e ele conhecia bem demais a rotina de papéis, assinaturas e carimbos que o aguardava a tarde toda. De repente, ficou curioso para saber com que cara estaria o dia. As janelas de seu escritório foram tapadas por grandes ares-condicionados, então andou até o corredor do prédio e viu uma clara tarde de verão. Esqueceu o paletó na cadeira e desceu para a rua. Andou por cinco horas seguidas, sentiu o calor forte da tarde e o ameno da noite. Observou com interesse o movimento de pessoas na rua sentindo o prazer de notar que era o único que olhava, ninguém devolvia o olhar, no intenso movimento de pedestres. Escutou o barulho de água correndo ao lado do cordão da calçada e lembrou das brincadeiras simples de criança, quando tão pouca água se transformava em caudaloso rio e levava seus barquinhos, mas a figura distorcida que a pequena corredeira devolveu foi o rosto de um quase velho. Carros buzinavam, bufavam, rosnavam, mas mal andavam, buscou o rosto concentrado dos motoristas e pela primeira vez percebeu que tudo aquilo era cômico, não pela tensão ou pelos problemas alheios, mas pela falta de sentido. Então andou de volta até o escritório, com cuidado para não pisar nas formigas, nem nas baratas. Lamentou não estar ali na madrugada para aprender o movimento dos ratos. Chegou no momento em que os últimos colegas iam embora. O alívio com o final do expediente fez com que ninguém questionasse nem sua saída, tampouco seu retorno. Ele pegou o paletó, alguns poucos pertences e saiu para sorver a vida e a noite.

 

 

ISABEL

 

            Naquela semana não foi à faculdade e sua mãe estranhou o número de vezes que saiu para trabalhar esquecendo de levar o celular. Na volta, nem se dava ao trabalho de olhar as chamadas e mensagens, a maioria do namorado. Passava a maior parte da noite em claro, em frente ao notebook, mas ninguém a encontrava nas redes sociais. Quem a olhava, percebia que estava envolvida em alguma busca para a qual era toda dedicação, alheia ao resto da vida. Na mesa de cabeceira, uma pilha de catálogos de viagem, na cama muitos livros sobre turismo. Isabel, sempre tão alegre, vivia uma agitação silenciosa. Um dia sua mãe chegou em casa carregada de sacolas, chamou pela filha, mas a casa estava vazia. Começou a guardar as compras quando viu o lixo seco repleto de caixas com livros de Pedagogia, correu para o quarto da filha, estava com uma arrumação que sugeria vazio. Encontrou o celular em cima da cama e embaixo desse, um bilhete:

“Mãe, preciso correr o mundo, ignorar fronteiras, viver. Um dia volto. Com amor, Isabel”.

 

MARCO

 

A esposa de Marco nunca soube exatamente o que aconteceu. Ele saiu para ver os fogos que comemoravam o novo ano e nunca mais voltou a ser o mesmo. Na verdade, uma semana antes ficou bastante silencioso e passou a escrever, de modo compulsivo, poemas em que a palavra se dissolvia; começavam com rimas e poucos versos depois perdiam a candência, a coerência e terminavam em letras dispersas, espasmos em vogais ou consoantes mudas. Era um contador, jamais havia lido um livro que não fosse técnico, quanto mais poesia. Depois da passagem de ano, todo o tempo que tinha fora do banco era em casa, dedicado aos filhos e a rotina familiar. E o humor também mudara, do homem de pouca paciência, ranzinza, até, parecia mais aberto à troca e também mais afetuoso. O problema era acostumar a dividir a administração do lar, logo para ela que organizara a família em torno das omissões dele. No entanto, quando Marco chegou com passagens compradas para uma nova lua-de-mel no Nordeste, ela pensou, feliz, que abrir mão de alguns postos poderia significar sentir-se mais viva.

 

A FESTA

 

            Três dias antes do natal, o banco ofereceu uma comemoração de final de ano para funcionários e familiares. Rogério nunca trabalhou no banco, apenas acompanhou uma amiga que era escriturária na instituição. Na verdade, ela o convidou para acompanha-la por temer encontrar o ex-marido com a nova namorada, enquanto ela estaria sozinha. Rogério gostava muito da amiga e quando as portas do elevador se abriram no sexto andar, estava tocando Frank Sinatra e ele se deu conta da dimensão da festa e percebeu que se divertiria muito. Logo pegou uma taça de espumante e com um largo sorriso, escolheu uma mesa para ocuparem. Ficaram de frente para a entrada, então Rogério a viu. Era alta e morena, com um longo vestido branco parecia uma modelo, chegou sozinha e tudo nela aparentava leveza.

            A encantadora mulher andou ao redor do salão e não conversou com ninguém, mas Isabel percebeu que ela mantinha um agradável sorriso e que por onde passava chamava atenção, sentiu uma ponta de inveja, por muito tempo sonhou em cumprir com o estereótipo de femme fatale, mas chegou aos vinte e cinco anos absolutamente comum. Acompanhava o namorado que era advogado no banco e ficou preocupada que ele dispensasse atenção demasiada para a estranha, então, enquanto Lulu Santos assegurava que nada do que foi será, ela o agarrou em um beijo demorado na tentativa de que ele não percebesse a beleza da outra.

            Marco observou-a animada na pista de dança. Era graciosa nos movimentos e tinha ritmo, mas no que mais se destacava era em animação. Para cada música seu corpo parecia ser um instrumento adequado e ela demonstrava estar em êxtase, a esposa de Marco também notou, mas estava muito preocupada com os filhos e a babá que os ficou cuidando, habitava muito mais as luzes do celular do que as da festa. Marco convidou-a para dançar, pois olhar o prazer daquela estranha dançando lhe deu vontade de fluir a música, mas a esposa não quis e levantou afastando-se do salão para ligar para casa.

            Rogério observou que aos poucos os movimentos da mulher ficaram mais lentos, mas mantinha o sorriso nos lábios e os olhos semicerrados. Isabel a viu começar a andar em direção a um dos cantos do salão, parecia que seus passos ainda estavam dominados pela música enquanto avançava. Marco notou que as pessoas abriam lhe caminho até que chegou às janelas fechadas. Ela abriu uma folha da janela e Marco esperou ver algum organizador da festa se aproximar e interromper o que parecia necessidade de se refrescar, mas o que ele viu a seguir, foi ela arrastando uma cadeira e usá-la para subir no parapeito. Marco levantou-se, parecia ser o único a perceber a situação, correu até ela, mas antes que a alcançasse, a mulher estendeu os braços e precipitou-se seis andares abaixo. Quando debruçou na janela, apesar da distância, pareceu-lhe ver os olhos dela. E Gonzaguinha perguntava nas caixas de som, o que é a vida.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A HORA DA TRAVESSIA

Taiasmin Ohnmacht
 
 
 
 

Andou apressada pela avenida, o caminho de sempre, todos os dias descer do ônibus no mesmo ponto e atravessar o mesmo cruzamento, mas as possiblidades de sexta a animavam; era final de tarde e ela já pensava na noite, saída com grupo de amigos.

Chegou à faixa de segurança assim que o sinal fechou para pedestres, o intenso movimento de veículos dava poucas esperanças de atravessar antes de uma nova mudança de sinal. Ela parou na calçada, olhando os carros que vinham de sua direita. Resignada com a espera familiar, observou um homem próximo que também aguardava para atravessar, parecia mais apressado, fazia menção com o corpo de precipitar-se em direção ao trânsito. Ela não via o rosto, mas observou-lhe o cabelo castanho e a linha bem feita do corte junto à nuca, o desenho dos ombros largos, as costas fortes, a calça larga ocultando os quadris. Ficou curiosa em ver o rosto dele, pensou em se esforçar para fazer isso quando chegassem ao outro lado da rua. Houve uma pausa no trafego de veículos e ele apressou o passo para atravessar a larga via, de modo quase automático, ela foi junto. No meio da rua, ele olhou para o outro lado, viu-a e sorriu. Consciente da imprudência, ele ainda falou, brincando:

─ Se morrermos, morreremos juntos!
 
Ela pensou que seria muito bom se desse a coincidência de encontrar com
 
 Foram enterrados em cemitérios diferentes.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

GOSTOSAS



Taiasmin Ohnmacht
 
Sim, eu a comi.
E como resistir? Pernas roliças valorizadas pela minissaia de jeans e salto alto e a bunda grande empinada sugerindo fartura de carnes. Desde o primeiro momento em que a vi, percebi que era perfeita! Exatamente o tipo de mulher de que gosto. Pele macia e uma leve saliência abdominal. Não tenho qualquer preconceito quanto à cor da pele, o que importa é a essência, mas sempre fui muito exigente, não gosto das magras, mas tampouco das gordas. Há um meio termo difícil de descrever. Costumo prestar atenção às costas na linha da cintura. Nem sempre a roupa permite observar, mas se a sobra de gordura ali é grande, nem me aproximo; se a linha das costas é perfeitamente paralela, sem curvas e com os ossos da coluna visíveis, também não me interesso.
Passei uma semana agradando aquela mulher, nos encontramos em bares e restaurantes, ela bebia bem e eu gostava disso, a cada drink eu ficava mais louco por ela, nada como comer uma mulher alcoolizada. Nem sempre consigo, encontro muitas cheias de pudores, com medo de que eu vá pensar mal delas se beberem demais, ou com medo de perderem o controle do encontro. Aí invento um brinde, uma comemoração qualquer. Mas com essa última foi perfeito! Deliciosa, do início ao fim.
Sou um especialista em mulheres, conheço de todos os tipos e sei quando vão render momentos de maior prazer ou não. Idade? Tenho preferência, sim. É quando as carnes estão firmes, sabe? Ali pelos vinte anos, até uns trinta, no máximo. Seios durinhos e generosos. Bom, quanto aos seios, confesso que o silicone me enganou algumas vezes, aí é uma decepção só, quando estou pronto para abocanhá-lo. Se o resto for bom, ainda me consolo pensando que nem tudo é perfeito.
Pois então, eu a comi e foi um banquete. Saboreei cada centímetro daquela mulher, foram horas e mais horas de prazer intenso na mesa do jantar. Parei para alguns cochilos, porque ninguém é de ferro. Agora acabou e tenho que procurar por outra. Nunca armazeno carne, o gosto não é o mesmo, nem tenho tanto espaço no freezer. E eu gosto mesmo é de carne fresca.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

NAS SOMBRAS DA REDENÇÃO




Taiasmin Ohnmacht

 

─ Eu tenho aula hoje, esqueceu?

─ Sábado à noite?

            É muita desfaçatez, ela fala como se tudo fosse normal. Sábado à noite, véspera de finados. Aula de quê? Que maldito curso de idiomas é esse?

            Enquanto ela se arruma, eu me sinto um idiota. Deveria ter colocado um detetive atrás dela como o Vilmar sugeriu, mas nunca confiei na opinião do meu sócio sobre as mulheres; para ele, todas são vagabundas. E vou descobrindo que ele tem razão.

            Ela se despede com um beijo rápido, bonita como sempre em sua esvoaçante saia branca, e eu a odeio por sua beleza. Espero ela sair e vou atrás. Ridículo! Um homem de quarenta e dois anos se prestando a esse papel, mas mais ridículo é saber que minha mulher me trai e não fazer nada.

            Desço pelo elevador de serviço e chego antes na calçada, consigo um táxi com facilidade e espero ela sair. Sei que demora porque acaba de se maquiar no carro. Ela sai da garagem e eu a sigo, pedindo a todos os santos para estar errado. O taxista logo deduz o que se passa e parece dirigir com mais presteza enquanto me conta que já passou por situação semelhante e também do caos em que sua vida se transformou depois da separação. O carro entra em um estacionamento do Bom Fim e em seguida ela sai com a bolsa e uma sacola que desconheço. Desembarco do táxi e o motorista penalizado não cobra a corrida.

─ Cara, eu sei que é difícil, mas perdoa. Se é ruim com elas, pior sem.

            Existe legítima defesa da honra contra taxistas metidos?

            Aproveito as sombras das ruas mal iluminadas para me esconder. Só consigo imaginar que está indo para um motel. Na verdade, espero que ela vá para um motel, a dúvida me tortura mais do que a certeza.

            Ela anda tranquila pela noite vazia e se fosse uma estranha que passasse casualmente por mim, eu me apaixonaria de novo. E o que mais dói é que, para algum outro, ela é uma encantadora estranha, mas nunca mais para mim.

            Não acredito no que vejo! Quem é essa mulher? Não pode ser a minha! Oito horas da noite e ela está entrando na Redenção! Corro para abraça-la e protegê-la? Digo que podemos esquecer tudo e a convido para voltarmos juntos para casa?

            Ela para entre duas árvores, lança um olhar suspeito ao redor e desaparece na escuridão do parque. Tomara que morra! Apesar disso a sigo e talvez morramos os dois. Enquanto meus olhos se acostumam à escuridão, fico imaginando em quanta merda estou pisando e em quanta camisinha usada. Felizmente vim com o sapato que ela me deu no meu aniversário e do qual apenas fingi gostar.

            Agora ela é uma sombra de flutuante pano branco. A personificação de um espectro. De que perversão essa mulher padece? Onde vai encontrar seu amante? Vejo luzes fracas e tremulantes à distância. Sons abafados de vozes. É para lá que ela está indo? Quantos são esses amantes? Ela se aproxima, todos a cumprimentam. Enquanto estão concentrados na alegria do encontro, eu consigo me aproximar mais. Estou a uns dez metros deles, atrás de um jacarandá. Há velas espalhadas por toda a parte, reconheço um pouco atrás do grupo os pontos cardeais, enquanto vou perdendo todas as minhas certezas e o meu norte. É um grupo grande, alguns tiram a roupa, outros colocam. Mas já descartei a hipótese de ser uma suruba. Com dificuldade localizo ela, trocando de roupa. Na verdade, a saia é a mesma, mas agora há uma blusa branca solta e cheia de babados, muitos colares no pescoço. Alguns homens começam a tocar tambores e outras mulheres cantam. Volto a enxerga-la, mas não é ela. Fuma um charuto e dança como uma velha. Percebo que de repente para, voltada a minha direção. Não é possível! Parece me ver! Aponta o charuto para mim e solta uma longa e sonora gargalhada.

            Corro e por pouco não tropeço. Choro e rio ao mesmo tempo. Sair do parque foi mais fácil do que entrar. Não há nada mais que possa me surpreender nessa noite. Vou pegar um táxi e ir para casa. Preciso fazer a janta. Será que ela vai chegar com fome?

domingo, 31 de agosto de 2014

EXÉQUIAS



Taiasmin Ohnmacht 

O dia amanheceu pleno de morte em uma manhã cansada e conformada com o passar das horas.
Nos olhos dela a perplexidade de uma atriz que foi abandonada no desenrolar de sua tragédia.
Sentimentos? Que sentimento? Alívio? Ódio? Dor? Tudo e nada num imenso vazio. Os sentidos desmoronavam.