quinta-feira, 18 de junho de 2015

quarta-feira, 10 de junho de 2015

REVEILLON

 
 
 
Taiasmin Ohnmacht

 

ROGÉRIO

 

Eram duas da tarde e ele conhecia bem demais a rotina de papéis, assinaturas e carimbos que o aguardava a tarde toda. De repente, ficou curioso para saber com que cara estaria o dia. As janelas de seu escritório foram tapadas por grandes ares-condicionados, então andou até o corredor do prédio e viu uma clara tarde de verão. Esqueceu o paletó na cadeira e desceu para a rua. Andou por cinco horas seguidas, sentiu o calor forte da tarde e o ameno da noite. Observou com interesse o movimento de pessoas na rua sentindo o prazer de notar que era o único que olhava, ninguém devolvia o olhar, no intenso movimento de pedestres. Escutou o barulho de água correndo ao lado do cordão da calçada e lembrou das brincadeiras simples de criança, quando tão pouca água se transformava em caudaloso rio e levava seus barquinhos, mas a figura distorcida que a pequena corredeira devolveu foi o rosto de um quase velho. Carros buzinavam, bufavam, rosnavam, mas mal andavam, buscou o rosto concentrado dos motoristas e pela primeira vez percebeu que tudo aquilo era cômico, não pela tensão ou pelos problemas alheios, mas pela falta de sentido. Então andou de volta até o escritório, com cuidado para não pisar nas formigas, nem nas baratas. Lamentou não estar ali na madrugada para aprender o movimento dos ratos. Chegou no momento em que os últimos colegas iam embora. O alívio com o final do expediente fez com que ninguém questionasse nem sua saída, tampouco seu retorno. Ele pegou o paletó, alguns poucos pertences e saiu para sorver a vida e a noite.

 

 

ISABEL

 

            Naquela semana não foi à faculdade e sua mãe estranhou o número de vezes que saiu para trabalhar esquecendo de levar o celular. Na volta, nem se dava ao trabalho de olhar as chamadas e mensagens, a maioria do namorado. Passava a maior parte da noite em claro, em frente ao notebook, mas ninguém a encontrava nas redes sociais. Quem a olhava, percebia que estava envolvida em alguma busca para a qual era toda dedicação, alheia ao resto da vida. Na mesa de cabeceira, uma pilha de catálogos de viagem, na cama muitos livros sobre turismo. Isabel, sempre tão alegre, vivia uma agitação silenciosa. Um dia sua mãe chegou em casa carregada de sacolas, chamou pela filha, mas a casa estava vazia. Começou a guardar as compras quando viu o lixo seco repleto de caixas com livros de Pedagogia, correu para o quarto da filha, estava com uma arrumação que sugeria vazio. Encontrou o celular em cima da cama e embaixo desse, um bilhete:

“Mãe, preciso correr o mundo, ignorar fronteiras, viver. Um dia volto. Com amor, Isabel”.

 

MARCO

 

A esposa de Marco nunca soube exatamente o que aconteceu. Ele saiu para ver os fogos que comemoravam o novo ano e nunca mais voltou a ser o mesmo. Na verdade, uma semana antes ficou bastante silencioso e passou a escrever, de modo compulsivo, poemas em que a palavra se dissolvia; começavam com rimas e poucos versos depois perdiam a candência, a coerência e terminavam em letras dispersas, espasmos em vogais ou consoantes mudas. Era um contador, jamais havia lido um livro que não fosse técnico, quanto mais poesia. Depois da passagem de ano, todo o tempo que tinha fora do banco era em casa, dedicado aos filhos e a rotina familiar. E o humor também mudara, do homem de pouca paciência, ranzinza, até, parecia mais aberto à troca e também mais afetuoso. O problema era acostumar a dividir a administração do lar, logo para ela que organizara a família em torno das omissões dele. No entanto, quando Marco chegou com passagens compradas para uma nova lua-de-mel no Nordeste, ela pensou, feliz, que abrir mão de alguns postos poderia significar sentir-se mais viva.

 

A FESTA

 

            Três dias antes do natal, o banco ofereceu uma comemoração de final de ano para funcionários e familiares. Rogério nunca trabalhou no banco, apenas acompanhou uma amiga que era escriturária na instituição. Na verdade, ela o convidou para acompanha-la por temer encontrar o ex-marido com a nova namorada, enquanto ela estaria sozinha. Rogério gostava muito da amiga e quando as portas do elevador se abriram no sexto andar, estava tocando Frank Sinatra e ele se deu conta da dimensão da festa e percebeu que se divertiria muito. Logo pegou uma taça de espumante e com um largo sorriso, escolheu uma mesa para ocuparem. Ficaram de frente para a entrada, então Rogério a viu. Era alta e morena, com um longo vestido branco parecia uma modelo, chegou sozinha e tudo nela aparentava leveza.

            A encantadora mulher andou ao redor do salão e não conversou com ninguém, mas Isabel percebeu que ela mantinha um agradável sorriso e que por onde passava chamava atenção, sentiu uma ponta de inveja, por muito tempo sonhou em cumprir com o estereótipo de femme fatale, mas chegou aos vinte e cinco anos absolutamente comum. Acompanhava o namorado que era advogado no banco e ficou preocupada que ele dispensasse atenção demasiada para a estranha, então, enquanto Lulu Santos assegurava que nada do que foi será, ela o agarrou em um beijo demorado na tentativa de que ele não percebesse a beleza da outra.

            Marco observou-a animada na pista de dança. Era graciosa nos movimentos e tinha ritmo, mas no que mais se destacava era em animação. Para cada música seu corpo parecia ser um instrumento adequado e ela demonstrava estar em êxtase, a esposa de Marco também notou, mas estava muito preocupada com os filhos e a babá que os ficou cuidando, habitava muito mais as luzes do celular do que as da festa. Marco convidou-a para dançar, pois olhar o prazer daquela estranha dançando lhe deu vontade de fluir a música, mas a esposa não quis e levantou afastando-se do salão para ligar para casa.

            Rogério observou que aos poucos os movimentos da mulher ficaram mais lentos, mas mantinha o sorriso nos lábios e os olhos semicerrados. Isabel a viu começar a andar em direção a um dos cantos do salão, parecia que seus passos ainda estavam dominados pela música enquanto avançava. Marco notou que as pessoas abriam lhe caminho até que chegou às janelas fechadas. Ela abriu uma folha da janela e Marco esperou ver algum organizador da festa se aproximar e interromper o que parecia necessidade de se refrescar, mas o que ele viu a seguir, foi ela arrastando uma cadeira e usá-la para subir no parapeito. Marco levantou-se, parecia ser o único a perceber a situação, correu até ela, mas antes que a alcançasse, a mulher estendeu os braços e precipitou-se seis andares abaixo. Quando debruçou na janela, apesar da distância, pareceu-lhe ver os olhos dela. E Gonzaguinha perguntava nas caixas de som, o que é a vida.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A HORA DA TRAVESSIA

Taiasmin Ohnmacht
 
 
 
 

Andou apressada pela avenida, o caminho de sempre, todos os dias descer do ônibus no mesmo ponto e atravessar o mesmo cruzamento, mas as possiblidades de sexta a animavam; era final de tarde e ela já pensava na noite, saída com grupo de amigos.

Chegou à faixa de segurança assim que o sinal fechou para pedestres, o intenso movimento de veículos dava poucas esperanças de atravessar antes de uma nova mudança de sinal. Ela parou na calçada, olhando os carros que vinham de sua direita. Resignada com a espera familiar, observou um homem próximo que também aguardava para atravessar, parecia mais apressado, fazia menção com o corpo de precipitar-se em direção ao trânsito. Ela não via o rosto, mas observou-lhe o cabelo castanho e a linha bem feita do corte junto à nuca, o desenho dos ombros largos, as costas fortes, a calça larga ocultando os quadris. Ficou curiosa em ver o rosto dele, pensou em se esforçar para fazer isso quando chegassem ao outro lado da rua. Houve uma pausa no trafego de veículos e ele apressou o passo para atravessar a larga via, de modo quase automático, ela foi junto. No meio da rua, ele olhou para o outro lado, viu-a e sorriu. Consciente da imprudência, ele ainda falou, brincando:

─ Se morrermos, morreremos juntos!
 
Ela pensou que seria muito bom se desse a coincidência de encontrar com
 
 Foram enterrados em cemitérios diferentes.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

GOSTOSAS



Taiasmin Ohnmacht
 
Sim, eu a comi.
E como resistir? Pernas roliças valorizadas pela minissaia de jeans e salto alto e a bunda grande empinada sugerindo fartura de carnes. Desde o primeiro momento em que a vi, percebi que era perfeita! Exatamente o tipo de mulher de que gosto. Pele macia e uma leve saliência abdominal. Não tenho qualquer preconceito quanto à cor da pele, o que importa é a essência, mas sempre fui muito exigente, não gosto das magras, mas tampouco das gordas. Há um meio termo difícil de descrever. Costumo prestar atenção às costas na linha da cintura. Nem sempre a roupa permite observar, mas se a sobra de gordura ali é grande, nem me aproximo; se a linha das costas é perfeitamente paralela, sem curvas e com os ossos da coluna visíveis, também não me interesso.
Passei uma semana agradando aquela mulher, nos encontramos em bares e restaurantes, ela bebia bem e eu gostava disso, a cada drink eu ficava mais louco por ela, nada como comer uma mulher alcoolizada. Nem sempre consigo, encontro muitas cheias de pudores, com medo de que eu vá pensar mal delas se beberem demais, ou com medo de perderem o controle do encontro. Aí invento um brinde, uma comemoração qualquer. Mas com essa última foi perfeito! Deliciosa, do início ao fim.
Sou um especialista em mulheres, conheço de todos os tipos e sei quando vão render momentos de maior prazer ou não. Idade? Tenho preferência, sim. É quando as carnes estão firmes, sabe? Ali pelos vinte anos, até uns trinta, no máximo. Seios durinhos e generosos. Bom, quanto aos seios, confesso que o silicone me enganou algumas vezes, aí é uma decepção só, quando estou pronto para abocanhá-lo. Se o resto for bom, ainda me consolo pensando que nem tudo é perfeito.
Pois então, eu a comi e foi um banquete. Saboreei cada centímetro daquela mulher, foram horas e mais horas de prazer intenso na mesa do jantar. Parei para alguns cochilos, porque ninguém é de ferro. Agora acabou e tenho que procurar por outra. Nunca armazeno carne, o gosto não é o mesmo, nem tenho tanto espaço no freezer. E eu gosto mesmo é de carne fresca.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

NAS SOMBRAS DA REDENÇÃO




Taiasmin Ohnmacht

 

─ Eu tenho aula hoje, esqueceu?

─ Sábado à noite?

            É muita desfaçatez, ela fala como se tudo fosse normal. Sábado à noite, véspera de finados. Aula de quê? Que maldito curso de idiomas é esse?

            Enquanto ela se arruma, eu me sinto um idiota. Deveria ter colocado um detetive atrás dela como o Vilmar sugeriu, mas nunca confiei na opinião do meu sócio sobre as mulheres; para ele, todas são vagabundas. E vou descobrindo que ele tem razão.

            Ela se despede com um beijo rápido, bonita como sempre em sua esvoaçante saia branca, e eu a odeio por sua beleza. Espero ela sair e vou atrás. Ridículo! Um homem de quarenta e dois anos se prestando a esse papel, mas mais ridículo é saber que minha mulher me trai e não fazer nada.

            Desço pelo elevador de serviço e chego antes na calçada, consigo um táxi com facilidade e espero ela sair. Sei que demora porque acaba de se maquiar no carro. Ela sai da garagem e eu a sigo, pedindo a todos os santos para estar errado. O taxista logo deduz o que se passa e parece dirigir com mais presteza enquanto me conta que já passou por situação semelhante e também do caos em que sua vida se transformou depois da separação. O carro entra em um estacionamento do Bom Fim e em seguida ela sai com a bolsa e uma sacola que desconheço. Desembarco do táxi e o motorista penalizado não cobra a corrida.

─ Cara, eu sei que é difícil, mas perdoa. Se é ruim com elas, pior sem.

            Existe legítima defesa da honra contra taxistas metidos?

            Aproveito as sombras das ruas mal iluminadas para me esconder. Só consigo imaginar que está indo para um motel. Na verdade, espero que ela vá para um motel, a dúvida me tortura mais do que a certeza.

            Ela anda tranquila pela noite vazia e se fosse uma estranha que passasse casualmente por mim, eu me apaixonaria de novo. E o que mais dói é que, para algum outro, ela é uma encantadora estranha, mas nunca mais para mim.

            Não acredito no que vejo! Quem é essa mulher? Não pode ser a minha! Oito horas da noite e ela está entrando na Redenção! Corro para abraça-la e protegê-la? Digo que podemos esquecer tudo e a convido para voltarmos juntos para casa?

            Ela para entre duas árvores, lança um olhar suspeito ao redor e desaparece na escuridão do parque. Tomara que morra! Apesar disso a sigo e talvez morramos os dois. Enquanto meus olhos se acostumam à escuridão, fico imaginando em quanta merda estou pisando e em quanta camisinha usada. Felizmente vim com o sapato que ela me deu no meu aniversário e do qual apenas fingi gostar.

            Agora ela é uma sombra de flutuante pano branco. A personificação de um espectro. De que perversão essa mulher padece? Onde vai encontrar seu amante? Vejo luzes fracas e tremulantes à distância. Sons abafados de vozes. É para lá que ela está indo? Quantos são esses amantes? Ela se aproxima, todos a cumprimentam. Enquanto estão concentrados na alegria do encontro, eu consigo me aproximar mais. Estou a uns dez metros deles, atrás de um jacarandá. Há velas espalhadas por toda a parte, reconheço um pouco atrás do grupo os pontos cardeais, enquanto vou perdendo todas as minhas certezas e o meu norte. É um grupo grande, alguns tiram a roupa, outros colocam. Mas já descartei a hipótese de ser uma suruba. Com dificuldade localizo ela, trocando de roupa. Na verdade, a saia é a mesma, mas agora há uma blusa branca solta e cheia de babados, muitos colares no pescoço. Alguns homens começam a tocar tambores e outras mulheres cantam. Volto a enxerga-la, mas não é ela. Fuma um charuto e dança como uma velha. Percebo que de repente para, voltada a minha direção. Não é possível! Parece me ver! Aponta o charuto para mim e solta uma longa e sonora gargalhada.

            Corro e por pouco não tropeço. Choro e rio ao mesmo tempo. Sair do parque foi mais fácil do que entrar. Não há nada mais que possa me surpreender nessa noite. Vou pegar um táxi e ir para casa. Preciso fazer a janta. Será que ela vai chegar com fome?

domingo, 31 de agosto de 2014

EXÉQUIAS



Taiasmin Ohnmacht 

O dia amanheceu pleno de morte em uma manhã cansada e conformada com o passar das horas.
Nos olhos dela a perplexidade de uma atriz que foi abandonada no desenrolar de sua tragédia.
Sentimentos? Que sentimento? Alívio? Ódio? Dor? Tudo e nada num imenso vazio. Os sentidos desmoronavam.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ARAPUÁ


Taiasmin Ohnmacht

 


Dois dias fora daquele lugar. Após um mês de loucura começo a me sentir melhor. O mundo volta ao normal, agradável e previsível.

            Cheiro de comida. Devo descer para o jantar, isso não é um hotel e a família Rogovski, que me hospeda, vai ficar ofendida se eu passar mais tempo recluso nesse quarto.

            O queixo do menino sentado à minha frente mal alcança à beirada da mesa e ele me olha com curiosidade por trás do vapor da sopa quente. O homem que me acolheu fala sem parar sobre a safra do milho, soja, feijão. Acho que só aceitou me receber porque sou agrônomo. Na verdade, nem sei bem como a filha dele me encontrou, muito menos o que disse aos pais. Tudo de que me lembro é do gosto de terra na boca e do desejo de que a morte me tirasse rápido dali.

 

            É madrugada e acordo assustado com o barulho do choro, deve ser o filho pequeno do casal. Não consigo voltar a adormecer. Casas de madeira sussurram à noite. Quando fugi da outra, ela gritava. Eu corri tanto que atravessei a divisa entre Arapuá e Centenário, distante oito quilômetros do meu sítio, quando não aguentei mais caí exausto, mas ainda escutando a casa. Acredito que foi assim que Cibele me encontrou, desacordado.

            Arapuá me pareceu um sonho. Município com menos de mil habitantes, entre Áurea, Carlos Gomes e Centenário. A primeira vez em que estive lá foi na década de 90, quando trabalhava para a EMBRAPA e fui enviado para fazer um estudo do solo no município de Áurea. Naquela época, Arapuá ainda não havia se emancipado, mas já era uma localidade tão encantadora que decidi me mudar para lá assim que me aposentasse. Como sou sozinho, dependi apenas de minha vontade para realizar esse sonho, quase uma década depois.

 

            Novamente choro de criança. Não tive filhos, mas esse menino não está um pouco crescido para manhas noturnas? Daqui a pouco vai começar a amanhecer, melhor tentar dormir mais um pouco.

            Eu vi Cibele apenas uma vez, quando recobrei a consciência no dia seguinte, ainda muito confuso. Senti um cheiro de azedo e me assustei, pensei estar de volta à casa, então ela me tranquilizou e me explicou onde eu estava, depois saiu e não a vi mais.

 

            Não demorei para encontrar um imóvel. Assim que retornei à cidade com intenção de ficar, hospedei-me no maior estabelecimento comercial de Arapuá, uma mistura de mercado, loja de roupas e hotel. O dono era um senhor falante e simpático, com o sotaque carregado da região, ele limpava as unhas com a rosca de um abridor de vinhos enquanto conversávamos e quando soube do meu interesse em me mudar, começou a falar das terras disponíveis na pequena cidade. Ele falava alto, para mim e para os seus clientes habituais que tinham aquele comércio como ponto de encontro, às vezes eles entravam na conversa com algum comentário que deveria ser espirituoso, mas que eu não entendia, pois não conhecia nem o lugar, nem as pessoas. Ele me falou de um sítio há uns quatro quilômetros de distância do centro da cidade, uma localidade chamada Lajeado do Leite Rubro.

─ Do Leito Rubro?  ─ não foi bem uma pergunta, eu praticamente corrigi o homem. Ele parou de limpar as unhas e o olhar que me lançou fez com que me sentisse um menino ingênuo.

 

            As jantas da família são bem servidas, comida caseira feita no fogão à lenha. Por onde andará Cibele? Quero perguntar, mas não ouso, não fica bem um velho ficar questionando por onde anda uma mocinha. O menino continua com seu olhar curioso por trás do prato. A mãe dele é silenciosa, mas às vezes me sorri com simpatia. Estou me sentindo cada vez melhor, hoje meu anfitrião me levou para ver suas terras que prometem uma boa safra de trigo e soja. Está chegando a hora de ir embora, não volto para Arapuá, preciso encontrar outro modo de vender meus hectares malditos. Os móveis e meus poucos pertences ficam lá. Nunca fui apegado a coisas e não vai ser agora que vou me apegar.

 

            Acordo assustado, sonhei com o lajeado e as águas estavam realmente vermelhas. No meu sonho o choro era alto, mas agora percebo que é o menino novamente, e o choro é baixo, quase contido. Melhor voltar a dormir, mas a casa sussurra.

 

            A casa do sítio, em Arapuá, era de madeira e velha. Arrumei o que pude com algum conhecimento de marcenaria que herdei do meu pai, mas a precariedade de minhas ferramentas comprometeu a qualidade do trabalho. Mesmo assim fiquei feliz com meu novo lugar no mundo. Planejei solicitar licença ambiental para cortar algumas árvores próximas para reduzir as sombras e a umidade da casa. A única coisa que me incomodava de fato era um estranho cheiro de leite azedo que vinha do pequeno riacho que passava pela propriedade. Algumas vezes era mais forte, outras nem se sentia, tudo dependia da direção do vento.

            Vivi na casa por um mês considerando alguns ruídos incompreensíveis como excentricidades da madeira e do vento. Até começar o choro.

 

            Meu Deus! Onde está o pesadelo? Na casa ou em mim? Hoje saí para a lavoura, no meio da florada da soja criei coragem e perguntei por Cibele. O sr. Rogovski me olhou com expressão de espanto. Interpretei aquele olhar, como uma resposta a uma pergunta inconveniente e comecei a explicar a minha curiosidade como natural, considerando que ele me ajudou em um momento difícil.

─ Eu não tenho filha. Só o meu guri, mesmo.

            O mundo girou ao meu redor e as coisas foram ficando ainda mais estranhas. Tentei explicar que estava falando da moça que me levara até sua casa, então ele deu uma risada um pouco constrangida e disse:

─ Não posso mais oferecer ao senhor minha cachaça artesanal. A mulher vive me dizendo que é muito forte, que só eu pra tomar aquilo.

─ Como cheguei até aqui? ─ questionei já muito nervoso.

─ Com suas pernas, dias atrás. O prefeito me avisou que a EMBRAPA ia mandar um agrônomo, até me disse o seu nome e pediu que eu hospedasse o senhor por uns dias.

─ Mas eu não trabalho mais lá, estou aposentado há um ano.

─ Como não? E o senhor tem feito o que nesses últimos dias? Quantas terras já visitamos na cidade?

            Não aguentei. Saí em direção à casa da família Rogovski e nem me importei em deixar meu anfitrião atônito ali. Quando entrei na cozinha, o fogão à lenha esquentava a casa preparando o almoço. Perguntei para sra. Rogovski se ela conhecia alguma Cibele, de Arapuá ou de Centenário ou de qualquer outra cidade da região. Ela me deu mais atenção do que qualquer outra vez, talvez por perceber que estava transtornado.

─ Não conheço, não. Mas se conhecesse não seria de Arapuá. Ninguém daria esse nome pra uma menina por lá, depois da história desgraçada daquela mãe.

            De repente, comecei a me questionar quando Cibele havia me dito seu nome. Acho que o escutei pela primeira vez da casa, quando os sussurros das madeiras começaram a formar palavras e por fim gritos. Cibele era um nome que as tábuas rangiam. Havia outros, mas o mais assustador era o barulho do machado se encravando na casa, rasgando as paredes. No último dia, antes de sair correndo, pude ver filetes de sangue escorrerem pela lâmpada da sala e pingarem sobre a mesa e o choro da criança era de pavor.

─ Não se sabe se o que houve entre ele e a mulher, ─ sra. Rogovski continuava o relato─ mas ele resolveu colocá-la pra fora de casa, o bebê ainda era de peito, uma judiaria. Dizem que ela vagava ao redor da casa, no mato, chorando e chamando pelo filho. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, era época de eleição municipal, e haja mate pra receber tantas visitas dos candidatos. Foi numa dessas visitas que encontraram os corpos do pai e do filho, retalhados, talvez tenha sido com um machado, ninguém nunca soube direito. Dias depois o corpo dela, pendurado em uma árvore, nas próprias terras. O candidato que encontrou os corpos perdeu as eleições, não demorou pro povo começar a dizer que era maldição da finada Cibele.

            Escutamos o toque de um telefone, não sabia que eles tinham um, mais do que escutar, eu senti o toque. Coloquei a mão no bolso e tirei um celular. Atendi como se aquele aparelho pudesse me morder. Era meu chefe, perguntava algo sobre o andamento da avaliação do solo. Desliguei. Subi para o quarto, estou aqui até agora e já anoiteceu. Agora já não sei mais nem quando estou, nem onde estive. Escuto sussurros, mas dessa vez não é a madeira e sim o casal que conversa e eu posso imaginar o assunto.

            Estou escutando o choro novamente, começou baixo, agora aumenta. Não é o filho do casal, é o mesmo choro da casa onde nem sei se estive. Não tenho para onde ir e devo estar completamente louco. Vou seguir o barulho do pranto, desço pra sala e passo para a cozinha, a porta está aberta, uma figura alta e elegante me olha do umbral, Cibele tem o rosto sereno e me estende a mão. Eu sou um homem que não sabe mais qual o seu presente, mas o futuro está decidido. Estendo a mão.