quarta-feira, 19 de abril de 2017

ARRISCAMENTOS





Cuspo tinta azul
Do sexo oral
Com a caneta
O escarro
Desenha letras
E me cobra sentido




Sub Atração

Nem eu
Nem você
Vamos nos ver
Hoje, amanhã
Ou em qualquer tempo
Equação de exclusão
Sobra o vazio
 
 
 
 
Restolho
 
Não te assustes com os obreiros da morte
Enquanto os vermes devoram teu corpo
Teu nome estará sendo dito
Em lamentos
Missas
E alívios
No dia em que restarem só ossos
Nem isso.
 
 
 
 
Palavra é larva que devora a coisa
 
 
 
 
 
 
 
 




sexta-feira, 31 de março de 2017

Escritoras Negras, por Priscila Pasko.

Abaixo, o link da excelente reportagem da jornalista Priscila Pasko, sobre escritoras gaúchas negras.

http://www.nonada.com.br/2017/03/por-que-nao-conhecemos-as-escritoras-negras-gauchas/


E a seguir, a minha participação com o poema Considerações:

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CRÔNICA DE UM DESEJO



 
Taiasmin Ohnmacht

 

Eu o desejo amante de um amor já perdido. Sou daquelas pessoas que inventam amores e que desejam o desejo.

            Não quero falar dos motivos, nem saberia. Quero dizer que imagino, ao lado dele, um mundo à parte, protegido do cotidiano. Não suporto dias previsíveis, nem vida repetitiva. Quero ser arrebatada por algo incontrolável, que me tire do eixo e me torne outra, porque tem algo em mim que eu mesma não aguento.

 

            Ele deixou visível uma intimidade com a namorada e eu comentei. Sim, fui inconveniente. Sim, me excedi. Sim, quero entrar pelas frestas que há entre os dois e sorver os fluídos que trocam, quero ser ela e ter o melhor dele, quero ser ela e deixar de ser também.

(e aquele que se chama meu marido ignora o meu desejo. Ele pensa que sabe e atende ao que pensa que eu quero. Saberia um pouco mais se me escutasse)

            Espero todos os dias pelas palavras que ele digita, que os seus dedos se acomodem em meu corpo e encham meu corpo/copo de perguntas bobas, de perguntas vazias, de um querer que me tome.

            Essa mania de inventar amores sempre acaba me deixando com um gosto amargo na boca. É bom que eu me lembre: não sou uma opção para ele (nem ele para mim), posso ser um acidente, não uma opção.

            Não conseguimos ser nem amantes, nem amigos. O carinho que temos, o gosto por conversar e as afinidades, são contaminados pela atração. E toda palavra tem mais de um sentido, e lemos os vários sentidos fingindo não ler, e gozamos nossa fingida seriedade e gozamos. Estou intoxicada dele, estou intoxicada com meu desejo. Ao não consumi-lo, consumo a mim.

            Entre conversas e silêncios, vou compondo minha idealização. Todas as conversas com ele são belas, mas às vezes terminamos mais amigos que amantes e não sei se me agrado. Sexo com ele é uma fantasia, talvez unilateral, mas o que mais me encanta é pensar que ele possa me desejar, que eu possa seduzi-lo. De qualquer modo, é possível que exista mais sexo em nossas conversas do que jamais poderia se dar em um encontro físico.

            Agora dei para ter ciúme dele! Não é exatamente de outras mulheres, mas de que ele encontre vida em outro lugar que não seja em mim. Esse é um mal do qual padecem todas as mulheres, sobretudo as apaixonadas.

            Escrevo essas linhas para perverter desencontro em encontro, com o açoite da palavra. Talvez aqui eu tenha o que essencial dele e que só possa ser encontrado em mim.

            Hoje pensei estar livre dele, mas percebi que não, estou apenas longe. Suspeito que ele seja o próprio desejo. Às vezes sei o que ele anda fazendo, outras não. Ele nunca mais me disse estar com saudades e eu me apego a palavras que a barra de rolagem leva adiante. Não, nunca estou indiferente. O meu desejo não está à deriva, mas afrouxado.

 

            Eu me conformo com o dia a dia e com o amor que posso ter. A vida não é grande coisa, nem pra mim nem pra ninguém.

            Não falo em amor, mas em uma certa necessidade de existir para além da vida comum e por isso escrevo. Ninguém pode suprir o meu desejo para o fantástico e, assim, fico o inventando em meu cotidiano.

            Vou enviar para ele todas os poemas que escrevi.

            Eu não tenho o direito. Eu não o tenho direito.

            Então é isso, estamos apartados. Não importam as palavras, ele sabe e eu sei que a escolha foi pelo fim. Não foi surpreendente, foi medíocre. Do jeito que se esperava desde o princípio. Surpreendente seria se tivéssemos nos permitido.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

LÚCIA




 
 
 
Para escutar a música, clique a seguir:

 
 
 
Letra: Taiasmin Ohnmacht
 
Música e voz: Galvão
 

LUCIA

 

Lucia me acusa

Eu me desculpo

Ela me recusa

E eu que nem fiz mal

Só pulei o carnaval

 

Coração duro

E quarto escuro

No silêncio

Nem um sussurro

 

Meu corpo quente

Derrete gelo

Eu espero por um aceno

Do teu corpo moreno

 

Eu posso te aquecer

Até o dia amanhecer

Me chama, Lúcia

Não deixa o desejo morrer.

 

Lucia me acusa

Eu me desculpo

Ela me recusa

Será o ponto final?

De um amor sem igual?

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ENTRE NÓS



Taiasmin Ohnmacht


Em meu corpo dois mundos
África e Europa
Europa domina África
Europa subjuga África
Europa vende espelhos
Ignorantes de África

Em meu corpo dois mundos
África se derrama sobre Europa
Resistência: palavra e ritmo
Em meu corpo a revolta

Meu corpo em
Europa que não é Europa
Meu corpo em
África que não é África
Meu corpo novo mundo
Em disputa
Meu corpo revolução

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

BALADA DOS OHNMACHT

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Taiasmin Ohnmacht
 
 
 
vem, meu irmão
vamos andando
não há lugar onde chegar
 
andando
estaremos indo a
algum lugar
 
os perigos da estrada
são a própria vida
 
vamos andando
meu irmão
vamos andando
 
todo lugar é porto
todo porto é partida
 
 


domingo, 15 de maio de 2016

FRONTEIRAS



Taiasmin Ohnmacht

Ainda estou aqui.
            Meu nome é Matheus, mas isso pouco importa, poderia ser Lucas, João ou qualquer outro.
            Não sei se alguém ainda se lembra de mim, mas eu me lembro de tudo e sigo faminto.
            Sentado na rua, olho o movimento de carros e pedestres, toco na calçada e sinto o piso gelado. Amo sentir esse frio. O cheiro de chão é uma mistura de terra, cimento e excrementos de tudo o que é vivo. A vida habita o solo. Quando criança, cavava buracos em busca de minhocas. Hoje há um determinado pedaço de chão no mundo onde, se cavar, vou encontrar minha derradeira face, e ela é a própria morte.
            Ando a esmo pelas ruas, não busco rostos conhecidos, mas quaisquer rostos que me sejam simpáticos e tenham um pouco de calor humano para compartilhar comigo. Mantenho distância dos deprimidos, a morte neles é maior do que em mim. E se o nada neles me aprisionar, me exilar da morte que conheço e me tornar uno com eles, uma massa disforme morta-viva?
            Não. Prefiro o mundo dos loucos que andam por aí acreditando que tudo vai fazer sentido no próximo beijo, na próxima festa, na próxima promoção. Aqueles que acreditam que a vida vai se realizar plena ao fim de cada pai-nosso, de cada aleluia. Credo!
            Estou morto o suficiente para reconhecer a vida. Sei que eles vão seguir por aí alienados, até o momento em que a terra abrir a boca para digerir suas mortes. Mas até lá seus dias estarão abarrotados de sensações e emoções. Os sigo para mais uma vez ver e sentir, pois quando vivia havia as cores intensas e a voz infantil dos meus filhos no quarto ao lado, e a dor da saudade é tudo o que resta sem a ajuda dos vivos.
            Sigo a pessoa por um tempo, respiro com ela, vejo com ela, mas às vezes quero mais. Então enguiço um carro para provocar uma caminhada ao sol, para aproveitar melhor as cores do dia. Atraio cães de rua que nos cheiram e fazem cócegas na pele. Estrago a bateria do celular, derrubo a rede para liberar olhos e ouvidos. Provoco encontros estranhos, paixões prementes. Porque a vida é essa que acontece enquanto se olha para outro lugar.
            Da morte não há nada que mereça ser contado. Apenas muito desejo de vida. Dizem que reencarnação existe. Não sei. Por aqui vejo os mesmos mortos de sempre, nenhum desapareceu sem explicações. E explicação é aquilo que os vivos usam para arrefecer a vida.
            Já fiz a minha escolha: criar alguns obstáculos no cotidiano dos que pulsam e não sabem, para que pulsem um pouco mais. E que eu pulse com eles.

Foto: Renata Stodulski

Tags: conto morto-vivo