terça-feira, 19 de dezembro de 2023

THE HORROR

 

Taiasmin Ohnmaht


When I was young, my father left us. At the time I didn't want to die, I understood that life must go on, but now I want to. Never in my life have I felt such sadness and pain. I think that dad resurrected to die again. So then, I will be there anew, wide-eyed and I’ll have a lump in my throat like a picture that immortalizes a moment of horror.

My name is Célia, but I’d like another name. Any name, I don’t care. I just don’t want to answer when someone calls me.

Now I’m an adult woman, close to old age. My time is near the end. And now, just now, my dead father returns. Not in his best days, but in pieces, suffering, he is not my father. It is the death itself, the death in the flash dad.


Texto produzido durante aula de inglês com a professora Adriana Lima (Savita).

sábado, 29 de julho de 2023

NÃO HÁ AMANHÃ

Taiasmin Ohnmacht


Não há amanhã
A repetição do ontem
O eterno retorno
Abutre que não se sacia de passado
Não há amanhã
A ordem das coisas
Confusão de mortos e lixos
A ordem das coisas
Ciranda
Sucessão de lugares
Os mesmo da mesma forma
Não há amanhã
O hoje é uma constatação
De tanto ontem que se demora

ZUM ZUM

 



Taiasmin Ohnmacht

Zumbi dos meus ouvidos
Zumbi sussurra
coragem e liberdade
zum zum zum
contínuo
Zumbi do recuerdo
os planos de fuga
zumbido a noite inteira
sonhos de dignidade




INVASÃO





Taiasmin Ohnmacht

pensamentos ocupados
movimentos sociais
resistências antifascistas
se cruzam
multidões se encontram
cenários explodem
escorre de meu crânio
o mundo todo
em espasmos
em revoltas
balanço a cabeça para que caiam
os tolos
os perversos
os muros
mas minha cabeça dói
enquanto sustenta meus olhos
esbugalhados

sábado, 13 de agosto de 2022

Dança!

 




Taiasmin Ohnmacht


O que é um corpo? O quanto de um corpo sou eu? O corpo preto dança, e sua dança interroga: qual o lugar de um corpo? Ora, eu não sou só um corpo, escutamos em bom português essas falas ciosas de seu valor.

Eu sou ciosa do meu movimento em braços e pernas. Faço mesmo a palavra dançar, sou oração: prece e frase. E minhas palavras têm alcance de braços e agilidade de pernas.

Não há espírito sem corpo, natureza sem corpo, inteligência sem corpo, palavra sem corpo.

Vida.

O corpo negro desnuda o cristo triste. O corpo pão e vinho, a antropofagia sagrada. O supremo sacrifício. Triste por quê? É uma felicidade ser divino. Cristo deveria dançar, aprender com os orixás.






quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Ano Novo

 então é isso: gesta e nasce

porque se tens algum poder

é o de engravidar-se

Taiasmin Ohnmacht

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Leitura crítica de Eliane Marques - Vozes de Retratos Íntimos

 




Quando os equívocos fazem a história*

Em "Vozes de Retratos Íntimos", Taiasmin Ohnmacht arma um álbum infamiliar para perpetuar parte da história amefricana
Em A Pobreza Ancestral, Georgina Herrera nos diz que, na sua casa, eram tão pobrezinhos que nunca houve dinheiro para os retratos. Os rostos familiares se perpetuaram em conversas. Agora, em Vozes de Retratos Íntimos (editora Taverna), Taiasmin Ohnmacht arma um álbum infamiliar para perpetuar parte da história amefricana. Assim como os retratos de Herrera, o álbum Ohnmacht é mais coro de vozes do que propriamente de imagens. Taiasmin é a corifeia. Ou eu deveria dizer griô?
Um equívoco! Parece que tudo nasce sempre de um equívoco. Seu ancestro, um alemão bravo, que chegou ao Brasil na condição de infamiliar, carregava o sobrenome Ohnmacht. Quando em Porto alegre, viu muitos homens pretos trabalhando. Isso lhe parecia a repetição da cena de que participara ao chegar na costa sul da África, quando, pela vez primeira, se sentiu valorizado. E branco, diz a narradora, que se anima a participar da cena com o avô equivocado.
O velho que, por equívoco, já havia feito do ferro de passar roupa instrumento para matar recebe do alemão que o recepciona outra arma, agora para se defender dos animais e dos selvagens. Ao perceber que esses são ou pertencem ao povo desapropriado do chão e da vida, como ele, em parte, fora desapropriado, não ficou a tempo de sujar suas mãos no genocídio dos hereros – prometera não mais violentar ninguém. Teria sido um equívoco seu a viagem para a costa sul-africana?
A palavra infamiliar é utilizada aqui no sentido de estrangeira ou de estrangeiro de dentro. O nome Ohnmacht talvez seja o primeiro infamiliar a saltar da foto para mirar a cara da narradora e lhe indagar, com a severidade de sua ancestra Antônia – como uma mulher que se reconhece como Negra pode carregar um sobrenome assim, uma verdadeira pedra de Sísifo? Não lhe seria mais fácil carregar um nome que se assentasse melhor com a pedra de Xangô?
Ohn.macht Sf, 1 impotência, fraqueza, debilidade. 2. Desmaio. In Ohnmacht fallen desmair. Esse o significado do sobrenome encontrado pela narradora num dicionário alemão-português. Parece que ela foi buscar uma fonte de certeza não do significado do seu sobrenome, mas sim do motivo pelo qual os oráculos (gregos ou iorubantos) impuseram a ela a história em que brancos negros e indígenas acreditaram num equívoco – o de que seu avô era um alemão bravo, quando ele não era nem alemão e nem parecia bravo. Porém, digo que a única debilidade de Ohnmacht, a Taiasmin, foi a habilidade de fazer de um equívoco literatura. E boa literatura.

Eliane Marques é escritora, poeta e editora.

*Texto originalmente publicado no jornal Zero Hora (01/10/2021)