Abaixo, o link da excelente reportagem da jornalista Priscila Pasko, sobre escritoras gaúchas negras.
http://www.nonada.com.br/2017/03/por-que-nao-conhecemos-as-escritoras-negras-gauchas/
E a seguir, a minha participação com o poema Considerações:
...por decisão dele, pedra ficou sendo pedra, raiva ficou sendo raiva, lua ficou sendo lua e assim por diante. (Gosto de África - Joel Rufino dos Santos).
sexta-feira, 31 de março de 2017
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
CRÔNICA DE UM DESEJO
Taiasmin Ohnmacht
Eu o desejo amante de um
amor já perdido. Sou daquelas pessoas que inventam amores e que desejam o
desejo.
Não
quero falar dos motivos, nem saberia. Quero dizer que imagino, ao lado dele, um
mundo à parte, protegido do cotidiano. Não suporto dias previsíveis, nem vida
repetitiva. Quero ser arrebatada por algo incontrolável, que me tire do eixo e
me torne outra, porque tem algo em mim que eu mesma não aguento.
Ele
deixou visível uma intimidade com a namorada e eu comentei. Sim, fui
inconveniente. Sim, me excedi. Sim, quero entrar pelas frestas que há entre os
dois e sorver os fluídos que trocam, quero ser ela e ter o melhor dele, quero
ser ela e deixar de ser também.
(e aquele que se chama
meu marido ignora o meu desejo. Ele pensa que sabe e atende ao que pensa que eu
quero. Saberia um pouco mais se me escutasse)
Espero
todos os dias pelas palavras que ele digita, que os seus dedos se acomodem em
meu corpo e encham meu corpo/copo de perguntas bobas, de perguntas vazias, de
um querer que me tome.
Essa
mania de inventar amores sempre acaba me deixando com um gosto amargo na boca.
É bom que eu me lembre: não sou uma opção para ele (nem ele para mim), posso
ser um acidente, não uma opção.
Não
conseguimos ser nem amantes, nem amigos. O carinho que temos, o gosto por
conversar e as afinidades, são contaminados pela atração. E toda palavra tem
mais de um sentido, e lemos os vários sentidos fingindo não ler, e gozamos
nossa fingida seriedade e gozamos. Estou intoxicada dele, estou intoxicada com
meu desejo. Ao não consumi-lo, consumo a mim.
Entre
conversas e silêncios, vou compondo minha idealização. Todas as conversas com
ele são belas, mas às vezes terminamos mais amigos que amantes e não sei se me
agrado. Sexo com ele é uma fantasia, talvez unilateral, mas o que mais me
encanta é pensar que ele possa me desejar, que eu possa seduzi-lo. De qualquer
modo, é possível que exista mais sexo em nossas conversas do que jamais poderia
se dar em um encontro físico.
Agora
dei para ter ciúme dele! Não é exatamente de outras mulheres, mas de que ele
encontre vida em outro lugar que não seja em mim. Esse é um mal do qual padecem
todas as mulheres, sobretudo as apaixonadas.
Escrevo
essas linhas para perverter desencontro em encontro, com o açoite da palavra.
Talvez aqui eu tenha o que essencial dele e que só possa ser encontrado em mim.
Hoje
pensei estar livre dele, mas percebi que não, estou apenas longe. Suspeito que
ele seja o próprio desejo. Às vezes sei o que ele anda fazendo, outras não. Ele
nunca mais me disse estar com saudades e eu me apego a palavras que a barra de
rolagem leva adiante. Não, nunca estou indiferente. O meu desejo não está à
deriva, mas afrouxado.
Eu
me conformo com o dia a dia e com o amor que posso ter. A vida não é grande
coisa, nem pra mim nem pra ninguém.
Não
falo em amor, mas em uma certa necessidade de existir para além da vida comum e
por isso escrevo. Ninguém pode suprir o meu desejo para o fantástico e, assim,
fico o inventando em meu cotidiano.
Vou
enviar para ele todas os poemas que escrevi.
Eu
não tenho o direito. Eu não o tenho direito.
Então
é isso, estamos apartados. Não importam as palavras, ele sabe e eu sei que a
escolha foi pelo fim. Não foi surpreendente, foi medíocre. Do jeito que se
esperava desde o princípio. Surpreendente seria se tivéssemos nos permitido.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
LÚCIA
Para escutar a música, clique a seguir:
Letra: Taiasmin Ohnmacht
Música e voz: Galvão
LUCIA
Lucia me acusa
Eu me desculpo
Ela me recusa
E eu que nem fiz mal
Só pulei o carnaval
Coração duro
E quarto escuro
No silêncio
Nem um sussurro
Meu corpo quente
Derrete gelo
Eu espero por um aceno
Do teu corpo moreno
Eu posso te aquecer
Até o dia amanhecer
Me chama, Lúcia
Não deixa o desejo morrer.
Lucia me acusa
Eu me desculpo
Ela me recusa
Será o ponto final?
De um amor sem igual?
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
ENTRE NÓS
Taiasmin Ohnmacht
Em meu corpo dois mundos
África e Europa
Europa domina África
Europa subjuga África
Europa vende espelhos
África e Europa
Europa domina África
Europa subjuga África
Europa vende espelhos
Ignorantes de África
Em meu corpo dois mundos
África se derrama sobre Europa
Resistência: palavra e ritmo
Em meu corpo a revolta
Meu corpo em
Europa que não é Europa
Meu corpo em
África que não é África
Meu corpo novo mundo
Em disputa
Meu corpo revolução
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
BALADA DOS OHNMACHT
Taiasmin Ohnmacht
vem, meu irmão
vamos andando
não há lugar onde chegar
andando
estaremos indo a
algum lugar
os perigos da estrada
são a própria vida
vamos andando
meu irmão
vamos andando
todo lugar é porto
todo porto é partida
domingo, 15 de maio de 2016
FRONTEIRAS
Taiasmin Ohnmacht
Ainda estou aqui.
Meu
nome é Matheus, mas isso pouco importa, poderia ser Lucas, João ou qualquer
outro.
Não
sei se alguém ainda se lembra de mim, mas eu me lembro de tudo e sigo faminto.
Sentado
na rua, olho o movimento de carros e pedestres, toco na calçada e sinto o piso
gelado. Amo sentir esse frio. O cheiro de chão é uma mistura de terra, cimento
e excrementos de tudo o que é vivo. A vida habita o solo. Quando criança,
cavava buracos em busca de minhocas. Hoje há um determinado pedaço de chão no
mundo onde, se cavar, vou encontrar minha derradeira face, e ela é a própria
morte.
Ando
a esmo pelas ruas, não busco rostos conhecidos, mas quaisquer rostos que me
sejam simpáticos e tenham um pouco de calor humano para compartilhar comigo.
Mantenho distância dos deprimidos, a morte neles é maior do que em mim. E se o
nada neles me aprisionar, me exilar da morte que conheço e me tornar uno com eles,
uma massa disforme morta-viva?
Não.
Prefiro o mundo dos loucos que andam por aí acreditando que tudo vai fazer sentido
no próximo beijo, na próxima festa, na próxima promoção. Aqueles que acreditam
que a vida vai se realizar plena ao fim de cada pai-nosso, de cada aleluia.
Credo!
Estou
morto o suficiente para reconhecer a vida. Sei que eles vão seguir por aí
alienados, até o momento em que a terra abrir a boca para digerir suas mortes.
Mas até lá seus dias estarão abarrotados de sensações e emoções. Os sigo para
mais uma vez ver e sentir, pois quando vivia havia as cores intensas e a voz
infantil dos meus filhos no quarto ao lado, e a dor da saudade é tudo o que
resta sem a ajuda dos vivos.
Sigo
a pessoa por um tempo, respiro com ela, vejo com ela, mas às vezes quero mais.
Então enguiço um carro para provocar uma caminhada ao sol, para aproveitar
melhor as cores do dia. Atraio cães de rua que nos cheiram e fazem cócegas na
pele. Estrago a bateria do celular, derrubo a rede para liberar olhos e
ouvidos. Provoco encontros estranhos, paixões prementes. Porque a vida é essa
que acontece enquanto se olha para outro lugar.
Da
morte não há nada que mereça ser contado. Apenas muito desejo de vida. Dizem
que reencarnação existe. Não sei. Por aqui vejo os mesmos mortos de sempre,
nenhum desapareceu sem explicações. E explicação é aquilo que os vivos usam
para arrefecer a vida.
Já
fiz a minha escolha: criar alguns obstáculos no cotidiano dos que pulsam e não
sabem, para que pulsem um pouco mais. E que eu pulse com eles.
Foto: Renata Stodulski
Tags: conto morto-vivo
Foto: Renata Stodulski
Tags: conto morto-vivo
sexta-feira, 15 de abril de 2016
TRAÇOS
Taiasmin Ohnmacht
Visto tua roupa
Ganho teus traços
Moldo meu corpo e meu abraço
E o que importa é o vazio de tua forma
Onde me encaixo.
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