...por decisão dele, pedra ficou sendo pedra, raiva ficou sendo raiva, lua ficou sendo lua e assim por diante. (Gosto de África - Joel Rufino dos Santos).
sábado, 4 de janeiro de 2014
PERVERSÃO
desejo
palavras que não existem
quero perverter signos
delirar significados
torturar a letra em fogo
e criar perigosas curvas
de acidentes fonéticos
violências semânticas
subjugar a palavra
e matar a gramática
de vergonha
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
PEQUENOS
I
Forja um grito
Porque na calma
Não se vê sangue
II
Já
vi o dia amanhecer
Nela
III
Pelo respeito
O peito exposto
Aponta e aposta
IV
A água escorre pelo vidro
E a cidade já não é a mesma
Urbanidade Dalí
Eu saio e me distorço
V
O lençol florido
Amarfanhado
Zomba da primavera
E protege os ouvidos
Do zumbido das abelhas
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
PARA QUEM QUER SE LANÇAR
É abordada no Bom Fim.
Um homem vesgo e um cartão. A direção da mão dirime a dúvida diante do olhar.
Micail do Nascimento – Socorrologista
Aline
pega o cartão impressionada com as profundas rugas de um rosto mais mal cuidado
do que velho.
- Alguém me odeia. – fala sem perceber
que fala.
- Tudo é relativo.
Aline
é conduzida por Micail até seu consultório. O branco irreal das paredes, piso e
móveis é quebrado por pirâmides douradas, em teto e cantos.
- Tu não pode me ajudar. Eu preciso que
alguém morra. – na voz dela, apenas decepção.
- Eu só faço partos.
Por
já estar lá e não ter opção melhor, ela se deixa deitar no tapete imensamente
branco, a cabeça encaixada em uma estrutura piramidal. Antes de liberá-la, Micail
receita toalha úmida na cabeça e arroz selvagem. Aline fica mais esperançosa,
lembra sua avó lhe dizendo não haver ganho sem sacrifício.
- Dentro de uma semana sua vida será
outra, mas não esqueça; a toalha tem que estar sempre úmida.
Aline
ficou imaginando o que poderia mudar na sua vida se não houvesse uma morte. Por
via das dúvidas e a despeito dos olhares curiosos, passou a usar a toalha
molhada como gorro. Difícil mesmo foi o arroz. O intestino começou a funcionar
com regularidade, mas isso não chegou a mudar sua vida.
Após
o terceiro dia de tratamento, ganhou um passeio de monomotor sobre o Guaíba.
Sorteio de um galeto paroquial ao qual nunca foi. Contente, passou a umedecer
ainda mais a toalha.
Emocionada
com o primeiro voo de sua vida, nem percebeu quando o único motor parou de
funcionar. O piloto agitado começou a gritar. Quando Aline entendeu o que
estava acontecendo, olhou para o rosto apavorado de seu condutor, lembrou de
Micail e o amaldiçoou. Resolveu pular do monomotor, só para ter o prazer de
fazer a última escolha da vida. Em sua queda, foi subitamente puxada para cima.
Havia um paraquedas em sua cabeça. E ele estava seco. Pousou os pés no chão com
delicadeza, mas aí já era outra. E no solo saiu andando Renata.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
INSEPULTA
Abriu
os olhos. Nada. O teto branco, um pequeno ventilador e a certeza de estar em
seu quarto. Seria o dia seguinte à ontem ou algum outro? Levantou do chão,
olhou a bagunça ao redor sem qualquer emoção. Sentiu o cheiro forte de álcool.
Nem enjoo, nem desejo. Estava morta. Então, chegou o dia tão anunciado por todos
que se preocupavam com ela. Andou pelo apartamento, mas nada lhe pertencia. Viu
a filha dormir no quarto ao lado e sentiu apenas a sensação de nada mais poder
fazer, se não confirmar a própria morte. Saiu para a rua, sentiu a aragem da
noite como algo estrangeiro à pele. Ela andava, olhava, escutava como se viva
fosse, mas o corpo estava oco e transitava em um automatismo sem qualquer
significado ou pertença. Imaginava que morrer fosse virar um espírito, mas
morta estava reduzida a um corpo.
Em seu ventre algo se agitava.
Seriam as larvas devorando sua alma? A alma habitava o útero ou o intestino?
Passou por um grupo de pessoas que sugavam a madrugada, mas se percebia mais
próxima da poeira e das pedras. Ansiava pelo momento em que se tornaria
completamente inanimada. Exilada da vida, talvez exalasse o cheiro de uma carne
pútrida, agitada pela fome da morte. Até os pensamentos eram cada vez mais
podres.
Tudo se movimentava dentro dela e
não era ela. Nada mais tinha importância no mundo, exceto a última ceia que
oferecia. Em um boteco, segurava cálice de vinho tinto, último brinde para
acalmar os vermes.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
VIGÍLIA
Taiasmin Ohnmacht
Suponhamos que ele me
pegue. Quando criança, achava que as bonecas brincavam enquanto eu dormia.
Jamais consegui surpreendê-las em seus folguedos, mas a ideia de que muitas
coisas podem acontecer quando fecho os olhos nunca me abandonou.
Roberto
reclamava de minhas horas insones. Desconfiava de meu perambular noturno. Era
sentir que eu levantava da cama, para que ele parasse de roncar. Se eu ligasse
a luz, era briga certa. Sua ambição era subjugar meu ritmo biológico. Agora,
olho para o relógio e sinto um prazer extra em ver que são três horas da manhã
e a luz está acesa. Olho com deboche para cima da cômoda.
Acordada
sempre me surpreendo com o tamanho da noite e em nenhum outro momento me sinto
tão sozinha. O lado bom é que posso pensar tranquilamente em Cássio. Em meio
aos cobertores e travesseiros, eu me aninho no quentinho e penso em seu corpo.
O desenho da linha de encontro entre nuca e pescoço, as unhas arredondadas, a
forma dos joelhos marcando as calças. Durante todo o dia fico lutando para
dissimular meus olhares, mas agora não preciso. Nenhum colega de trabalho para
despistar. Essas horas são só minhas. E não há canto escuro no quarto.
Nunca
tenho saudade, ele não se foi como era o esperado. Tenho pensado até em
convidar Cássio para vir a minha casa e transarmos nesta cama. Quem sabe mato
Roberto em definitivo. Mas, e se no obscurecimento do prazer, enquanto meus
olhos forem só de Cássio, será que Roberto não irá se levantar das cinzas e
devorar nossos sexos para recompor a própria carne? Rapidamente olho para a
urna. Impressão minha ou se mexeu um pouco?
sábado, 5 de outubro de 2013
LUGARES
LUGARES
Silvana nasceu pronta, apenas
para ser reconhecida e sua superioridade confirmada.
Certa vez no
cabelereiro, enquanto fazia mechas descoloridas em fios castanhos claros e
fungava ruidosamente por causa de uma rinite alérgica, descobriu-se sentada ao
lado da comissária de bordo que tomou o seu lugar na escala internacional.
- Escondendo (fungada) os brancos? - o
tom era de um comentário qualquer, conversa vazia de salão de beleza. Silvana
fazia boas encenações, sobretudo para si mesma.
- Eu tenho poucos – a comissária passou
a mão nos cabelos, evitando olhar para a ex-colega - prefiro o meu cabelo mais
escuro.
- É, a gente começa assim (fungada), mas
a verdade é que eles só querem guriazinhas. Primeiro é o cabelo, depois botox.
Uma puxadinha aqui, outra ali, mas não adianta, eles te sugam (fungada) e jogam
fora o bagaço. Competência? Não querem nem saber! Quantos anos tu tem?
- Trinta e dois.
As
poucas palavras poderiam matar o assunto, mas não para Silvana.
- Ah, mais uns cinco ou oito anos. Mais
uns cinco, né amor? Eu só durei tanto por que era muito (fungada) competente e,
mesmo assim... Isso que eu trabalhava em péssimas condições, a pressurização, o
ar, tudo, só agravou minha saúde (fungada forçada). Ah, mas eles vão me pagar!
Coloquei na justiça! – quando terminou a frase já estava fanha.
É
bem verdade que todos se incomodavam com os ruídos de Silvana pontuando o
discurso pronto e repetitivo de sua profissão, mas houve algo a mais que ela
esqueceu; resolveu ir a uma festa em Amsterdã, mesmo com voo marcado para as
seis e trinta da manhã do dia seguinte. Embora completamente fanha, até
trabalhou bem durante o embarque, mas depois da decolagem caiu em um sono
profundo do qual só foi acordada com dificuldade. Mas, creiam, ela esqueceu.
Ir
ao banco, sacar o auxílio desemprego, depositá-lo em outra conta para cobrir um
empréstimo, depois atravessar a cidade até a zona norte rumo a mais uma
entrevista de emprego. Com tudo esquematizado, Silvana chegou ao banco, mas o
horário próximo do almoço e o mês em seu início não contribuíram muito, ela
resignou-se a enfrentar uma longa fila.
Seis
caixas eletrônicos, um não fazia saque e estava vazio. Um caixa em teste, um
com saque desabilitado e os outros três desejadíssimos, ocupados por pessoas
ocupadas em pagar contas. Observar todo o movimento fazia com que Silvana
esquecesse um pouco a coceira no nariz, cada vez mais forte. Felicitou-se por
ter saído com tempo de casa.
Vigilante
dos espaços, dava um leve toque no senhor a sua frente a cada vez que a fila
andava e ele não cumpria com a obrigação de colar no próximo da fila.
Alertá-lo para o movimento necessário era, para ela, um favor a si mesma e a
todos que aguardavam a vez atrás dela.
Olhava
com inveja e indignação para os idosos que não participavam da longa espera e a
brabeza crescia quando o estagiário priorizava o atendimento deles, todos com
anos acumulados em contas a saldar de outros. Nessa altura, ela já dava
pequenos espirros e uma das narinas estava trancada. Não era adepta de nenhuma
crença, mas resolveu ter apenas pensamentos positivos na tentativa de suportar
a situação. Foi bem sucedida por alguns minutos durante a quase meia hora de espera.
Silvana
se animou quando chegou a sua vez e percebeu que o senhor, agora no único caixa
que funcionava, faria apenas um saque. Poucos instantes antes houve um
burburinho generalizado entre os clientes do banco, pois dois caixas entraram
em manutenção e a fila lenta ficou algo menos que isso. O estagiário procurou
tranquilizar a todos, seria um transtorno breve, apenas para abastecer as
máquinas de dinheiro. A indignação perdeu corpo, restando apenas uma
intranquilidade difusa.
O
senhor saiu e ela chegou à máquina, o cartão de seu benefício em mãos. O caixa
eletrônico raciocinava com indolência, talvez fosse o excesso de solicitações
do dia, mas Silvana não perdoou, começou a bater na máquina e a olhar para o
estagiário o convocando para alguma atitude. Como que revoltado, o caixa apagou
a tela de atendimento inicial e passou a exibir em grandes letras: EQUIPAMENTO
EM MANUTENÇÃO. Houve um breve momento em que quase chegou às lágrimas. Era como
uma confirmação do que, em seu íntimo, sempre suspeitou, havia uma conspiração
mundial para sacaneá-la, as pessoas não conseguiam conviver com alguém tão
cheia de qualidades quanto ela, e agora nem as máquinas. Dizem que os animais
acabam por assumir uma personalidade semelhante a de seus donos, será que os
aparelhos eletrônicos também? E se os caixas eletrônicos entendessem que os
clientes é que estavam a seu serviço e não o contrário?
- Eu sou cliente! – ela gritou – Eu sou
(fungada) cliente e quero meu direito de ser (fungada) atendida!
Silêncio.
Todos olhavam para Silvana.
- Tu – apontou para o estagiário – tu
mesmo, vem aqui e faz (fungada) esse troço funcionar.
Algumas
pessoas acompanhavam a cena com expectativa, e muitas outras gritavam palavras
de apoio e de protesto.
-Olha aqui, rapazinho, tu vai lá dentro
chamar o (fungada) gerente e diz para ele que tem clientes que exigem (fungada)
ser atendidos.
Ela
gritava, agora estimulada pelo grupo de pessoas que também aguardavam. O
estagiário estava constrangido e assustado, quase encostado na parede oposta
aos caixas eletrônicos. Dois seguranças não sabiam se mantinham suas posições
na porta giratória ou saíam para inibir a agitação liderada por Silvana.
- Esse (fungada) banco vive dos nossos
impostos, das taxas abusivas sobre nosso dinheiro!
Cada
palavra dela levava as pessoas a uma explosão de indignação. Outras falas, não
tão organizadas, mas altas o suficiente para ela escutar iam abastecendo-a de
argumentos.
O
estagiário sumiu banco adentro, mas logo foi substituído por um funcionário que
garantiu pronto restabelecimento do atendimento. Silvana escutou um barulho
atrás da divisória que protege os fundos dos caixas eletrônicos, olhou para a
tela e ela estava reiniciando. Preparou-se para sua vez.
Agora
com quatro dos seis caixas funcionando, as queixas eram esparsas, alguns
clientes recém chegados na agência nem tomaram conhecimento do pequeno tumulto.
Silvana terminou todas suas transações liberando o atendimento para a pessoa
seguinte, começou a ser aplaudida pelos que haviam se sentido representados.
Abanou para todos com um largo sorriso. Pensou que seria bom falar alguma
coisa.
- Nós somos fortes, temos que mostrar
para eles que o banco (espirro) é nosso!
Olhares
confusos, olhares de aprovação, mas a maior parte dos olhares divididos entre o
próximo da fila e o relógio.
Silvana
deu uma fungada e saiu do banco. Orgulhosa de si, entendeu toda a situação como
uma confirmação de seu valor. Era uma líder. Quem sabe uma carreira política ou
sindical?
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
FIM DO MUNDO
Taiasmin Ohnmacht
Às vinte e duas e quarenta e cinco da
noite de quarta-feira, toca o telefone:
- Alô?
- Seu Marco? É a Suzi do 601.
- Sim, dona Suzi?
- Eu quero reclamar. Tem vizinho que
está desrespeitando o horário de silêncio.
- Festa?
- Não! É essa maldita mania que vocês
homens tem de achar que nada é mais importante do que futebol! Aí, mesmo quem
não se interessa tem que ficar escutando, ainda mais nesse volume. Toda quarta
é a mesma coisa! Qualquer dia me irrito e faço uma besteira.
Marco
olhou a própria tv, expectativa diante da cobrança de um escanteio para seu
time. Baixou o volume.
- Calma dona Suzi. Eu falo com o
morador. Qual é o apartamento?
- 601.
Silêncio.
- Como, dona Suzi?
- 601.
- Desculpa, acho que não entendi. 601 é
o seu apartamento.
- Isso mesmo.
- Por que a senhora mesmo não abaixa?
- É o Ariovaldo. Eu não aguento mais.
Isso não é hora de escutar tv tão alto!
- Mas ele é o seu marido!
- Ah, tá! Agora eu tenho que pagar por
isso?!
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