sábado, 27 de abril de 2013

Das liberdades

Taiasmin Ohnmacht

Liberdade
para ser alegre,
rir de tolices,
poder ser leve.

Liberdade
para ser triste,
ter na alma dor que não existe,
mas que insiste em não ser breve.

Liberdade
para ser feliz
em conta-gotas no cotidiano,
em momentos fugazes, como um oceano.

Liberdade
para ser calada,
quando a saudade me deixar muda
e a caneta escrever nada.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Voragem


Taiasmin Ohnmacht


Em minha força a flacidez rompe em entranhas de soluços assustados. O tempo tudo pode e tudo leva com o vento morno de um inferno que me come pelo pé. Não me importo, pois do solo surgem brotos de mim mesma com tempero de cebolinha e o meu sabor é incrível. O céu desaba sobre meus cabelos em galhos para beijar o hálito de terra molhada. Sou a própria língua do mundo fecunda por pênis titânicos.
Um sussurro me corta em duas. Confusa, uma parte se perde. A solidão irada grita blasfêmias em meu rosto, enquanto archotes se inclinam em sinal de respeito. A vergonha me faz entrar em um buraco de minhoca, mas ele está vazio.
Enfim, deito na laje fria para a digestão dos vermes. E não sou mais uma, nem duas, mas muitas, rastejando viva.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

À Noite


Taiasmin Ohnmacht
 

Cassandra se sentia estranha àquele ambiente. Sentada na sala de um pequeno apartamento em meio a um grupo de oito pessoas, ela pensava que, na verdade, o mundo havia se tornado um lugar estranho. Por outro lado, estar lá era uma tentativa de dar sentido ao que parecia quase bizarro.

- Cassandra, todos nós estamos aqui por que acreditamos. Estamos prontos para te ouvir com respeito.

Márcio, fundador do grupo, procurava transmitir confiança em sua voz. Ela olhou para todos, rosto por rosto. Alguns olhares curiosos, outros simpáticos, então voltou-se para Márcio e começou a relatar sua história:

- No início fiquei assustada, agora passou. Eu quero saber mais, entender. Nunca imaginei ser possível.

- A gente vive cego pelo mundo. - comentou uma ruiva sentada próxima à porta de entrada do apartamento.

- Foi na semana passada. - Cassandra continuou - Eu estava voltando da aula. Eram dez e trinta e cinco da noite, eu sei por que olhei o relógio assim que desci do ônibus. Comecei a subir a rua, tinha que andar duas quadras para chegar em casa. O engraçado é que estava preocupada com o tempo, ou a falta dele. - Ela esboçou um sorriso enigmático.

- O tempo...sempre o tempo- murmurou Márcio.

- A rua estava vazia, eu só escutava o som dos meus passos. Depois de andar uma quadra, não sei o que me fez olhar para traz, mas olhei e, do alto da lomba, vi as luzes das casas e no horizonte uma pequena estrela distante. De repente, percebi que ela se movia!- Cassandra fez uma pausa, silêncio e expectativa dominavam a sala. Ela olhou para uma das paredes e viu um cartaz onde se lia “EU ACREDITO”. Márcio ofereceu-lhe um copo d’água, mas ela recusou.

- Uma estrela cadente, eu pensei. Até fiz um pedido, mas então notei que ela não sumia, pelo contrário, ia ficando cada vez mais intensa e...começou a vir em minha direção! Não conseguia acreditar no que estava vendo.

- Nós acreditamos. - Mais uma vez Márcio, com um sorriso acolhedor, mas Cassandra começou a se irritar com a repetição daquela frase. Nós acreditamos, nós acreditamos, quase parecia um mantra.

- Quando a luz parou exatamente acima da minha cabeça é que as coisas ficaram realmente estranhas...

- Como era?- perguntou Márcio.

- A luz? Naquele momento eu sabia que ela estava ali por que tudo ao meu redor, num raio de três metros, mais ou menos, estava intensamente iluminado, mas não podia olhar para cima, pressentia que ficaria cega.

- Tá, mas e aí? O que aconteceu de tão estranho? – Uma senhora de uns sessenta anos parecia ansiosa.

- Eu vi faróis de um veículo grande entrando na rua, não demorei a perceber que era um ônibus. Ele parou no mesmo ponto onde desci. Fiquei esperando que a pessoa visse o que acontecia comigo, então reparei que era uma moça e que a bolsa dela era igual a minha! – nesse momento, Cassandra estava bastante agitada. Um rapaz musculoso, parecendo um halterofilista que não combinava com o ambiente, comentou jocosamente:

- Ela esteve na mesma loja que tu! Só isso! – Márcio o fuzilou com o olhar e depois segurou a mão de Cassandra para acalmá-la.

- O sapato era igual ao meu, a roupa, o cabelo...Era eu! Naquele momento eu tremia. Em seguida que desceu do ônibus, olhou o relógio, tal qual eu fiz, então fixou o olhar a frente e continuou andando, como se eu não existisse cerca de trinta metros a sua frente. Era eu! Por algum motivo, o tempo tinha voltado e eu estava testemunhando tudo! Comecei a me perguntar quem eu era realmente e ao final daquilo, qual de nós duas iria restar? – Novo momento de silêncio na sala. Enquanto ia recobrando a calma reparou em um abajur em forma de nave espacial. – Quando ela, ou eu, olhou para traz, repetindo o que eu havia feito minutos antes, a luz se deslocou de cima de mim, numa velocidade impressionante... Então tudo desapareceu. A outra desapareceu e a noite silenciosa pareceu zombar de minha sanidade. Eu saí correndo e então me tranquei em casa assustada. - Após o relato de Cassandra, todos ficaram pensativos por alguns instantes.

- Isso? Tu nem foi abduzida! Qualquer um poderia inventar coisa melhor! – o comentário do halterofilista deu início a um acalorado debate. Cassandra pareceu nem escutar, olhava a sala e as pessoas nela. Em uma estante perto da janela viu alguns DVDs, reconheceu Jornada nas Estrelas, Star Wars, Arquivo X. Ela começou a se perguntar se alguém ali poderia, realmente, ajudá-la a entender o que lhe havia acontecido. Uma certeza tinha, não estava em um filme de ficção científica, o que viveu foi real.

            Cassandra levantou, pegou sua bolsa e se dirigiu até a porta. O falatório na sala diminuiu um pouco, Márcio foi até ela e falou:

- Não liga para o que ele disse. Nós acreditamos.

- Mas eu não.- Cassandra estava com um sorriso tranquilo e, acima de tudo, estava decidida, não havia respostas naquela sala.

            Ela saiu para a rua e olhou para o céu. As estrelas começavam a aparecer.

 

Taiasmin Ohnmacht 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Do Submundo

Dona, me perdi numas paradas,
numas esquinas assombradas
de luzes coloridas e sangue vivo.

Dona, me assusto por qualquer motivo,
meu dedo baila no gatilho,
raiva e ódio sobram em mim.

Dona, nem sempre fui assim,
estar chapado era meu sustento,
mas a ilusão se tornou tormento.
Dona, sei que estou no fim.

TAIASMIN OHNMACHT

domingo, 3 de fevereiro de 2013

POR UM FIO


 

Taiasmin Ohnmacht

 
            O pior era olhar para fora e ver as árvores em flor. Aquele cenário fazia com que sua vida parecesse ridícula. Silvana saiu da janela e voltou-se para a sala. Naquele apartamento bagunçado, frio e silencioso residia sua realidade. Na rua, a natureza debochava dela, nada mais.

            Ela largou-se no sofá. Que mal havia? Era assim que se sentia, em aparência, asseio e sexo. Uma mulher largada. Silvana afundou um pouco mais no sofá. Talvez nunca mais conseguisse sair de lá. Pelo menos, na sala a ausência dele era pouca, mas na cozinha e no quarto tudo gritava Manoel.

            Ele não foi por que quis. Ela o mandou embora. Morena, não pode acreditar quando encontrou um longo fio de cabelo loiro preso à cueca dele. Manoel tentou argumentar que poderia ser da empregada, um acidente ao cuidar das roupas do casal, ou o fio poderia ter caído da cabeleira da vizinha de cima, precipitou-se um andar e pousou inocentemente na cueca que secava no varal. Silvana não sabia o que havia a enfurecido mais, se a descoberta capilar ou as explicações estapafúrdias. O fato é que Manoel se foi.

            Agora, formando um único corpo com o sofá, perguntava-se; por que não ignorar aquele deslocado fio? Não imaginou que sentiria tanta saudade de Manoel. Será que ele voltaria? Se nada houvesse dito ao recolher a cueca do banheiro para lavar, ele nunca teria se justificado com tantas asneiras e ela encontraria alguma hipótese razoável para tranquilizar-se.

            Manoel era um homem sensível, se ela pedisse desculpas, talvez ele voltasse. Ela virou para o outro lado no sofá. Não pode ser assim. Imagina, logo ela pedindo desculpas. A prova do crime estava na cueca dele! Tudo o que Silvana fez foi ter olhos para ver.

Quem sabe fingir um suicídio? Ele voltaria. E culpado. Poderia tomar remédios, mas só havia homeopatia em casa. Cortar os pulsos. Não, gostava muito da própria pele. Pular do quarto andar. Como se fingi uma queda? Lembrou-se dos livros. Manoel falou que à noite iria buscá-los. Silvana imaginou-se ameaçando atear fogo nos livros, caso ele não voltasse para casa. Sem chance.

            Desanimada, ligou a TV. Qualquer coisa seria melhor que seus pensamentos. Mesmo angustiada, viu uma reportagem sobre a Feira do Livro. Ela e Manoel sempre iam juntos. Antes mesmo de a ideia tomar corpo em sua mente, começou a se arrumar. Um livro. Um não, muitos. Um para ele. O livro a ajudaria a dizer o que não conseguia. Um livro sobre a canalhice masculina. Não. Sobre traição. Não. Sobre amor. Isso! Talvez um livro de poesias. Nada como as palavras de um poeta. Mais de um livro. Autoajuda. Sim, ela precisava. Como superar a traição. Como vingar-se do marido. Como ter autoconfiança. Como lidar com a raiva. Como conversar. Talvez de tudo um pouco. Ah, não podia esquecer o toque final; um livro de mistério ou de aventura, com um convite para eles lerem juntos todos os dias à noite, deitados na cama e com os pés entrelaçados, como costumavam fazer.

 

 

domingo, 11 de novembro de 2012

Porto Alegre


Taiasmin Ohnmacht

 

- Andou fazendo arte?

- Eu não sou criança.

O diálogo não começou bem, mas Cassandra pensou que era um comentário realmente idiota para fazer a um senhor de setenta e oito anos de idade.

            Sete horas da manhã, a clínica estava vazia, exceto pelo senhor sentado em uma cadeira de rodas na sala de espera. Ele aguardava para fazer um rx de fêmur, enquanto sua esposa, na recepção, tentava entender por que o plano de saúde não liberava o exame. Já com todo o material preparado e acostumada a este tipo de procedimento, Cassandra resolveu conversar com o idoso, cuja ficha informava chamar-se Emílio.

 

- Arte. E tem quem diga que aquilo é arte. Para mim é só pichação, sujeira.

- Picharam sua casa? – Cassandra tentava entender do que aquele senhor estava falando.

- E como a senhorita pensa que eu machuquei minha perna? Os jovens acham que a cidade é só deles e ainda por cima a tratam mal. Imagina, sujar ruas, destruir praças, roubar fiação pública, quem eles acham que paga por isso, afinal?

Cassandra fez um breve comentário sobre o imediatismo juvenil.

- Senhorita, eu também já fui jovem, estas ruas também são minhas. Aqui nasci, cresci, amei e ainda vivo. Ainda vivo, entendeu?

Então Cassandra perguntou em que bairro ele morava.

- No bairro Petrópolis. Perto da casa da estrela. Nós temos uma associação de moradores do bairro pela preservação daquela casa. Uma casa linda na Rua Guararapes com uma imensa estrela no jardim. Arquitetura única! Infelizmente, parece que perdemos a batalha. Ela está ficando em ruínas. – após um suspiro ele continuou. – Eu moro naquele bairro há cinquenta anos. Lá criei os meus filhos e, na mesma casa, recebo meus netos. A senhorita mora aonde?

Cassandra adorava uma boa conversa e, animada, respondeu que morava na Plínio Brasil Milano.

- Ah, antiga Estrada da Pedreira! Muitos carnavais eu brinquei lá! Clube? Não. Carnaval de rua, mesmo. E eram divertidos! Com muitas Colombinas e lança perfume. - de repente olhou sério para Cassandra e complementou – Naquela época era permitido.

Cassandra achou graça e comentou desconhecer a história de sua região.

- Eu tive uma namorada que morava por aqueles lados. Muitos olhares e beijocas aquelas esquinas presenciaram. – Emílio falou esta frase em voz baixa e comentou, ainda, que sua esposa era ciumenta. – Quando nasci morávamos na Cidade Baixa. Um bairro antigo, sabe? Lá vivi a enchente de 41. A senhorita é tão novinha que nem deve saber do que se trata! Enfim, ficamos desabrigados e acabamos nos mudando para o Centro, Altos da Bronze. Naqueles tempos o Centro era o que havia de melhor na nossa cidade para um rapaz que se via com todo um futuro de possibilidades pela frente. Hoje está tão sujo...Sabe, eu estava tentando limpar. Subi no muro para tentar limpar a parede de minha casa. Alguém pichou na madrugada. Então, caí. Agora aqui estou. Não sou mais criança, mesmo.

            Cassandra iria falar algo, mas a esposa de Emílo entrou na sala de espera se queixando dos desmandos do plano de saúde. Ele fez o exame, Cassandra não era médica, por isso não disse a ele, mas viu que não se tratava de uma fratura. Ela despediu-se daquele senhor muito pensativa e, naquele dia, saiu para a rua olhando a cidade com carinho e respeito, sentindo-se pequenina diante de tanta história.

 

Taiasmin Ohnmacht

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Estação de Meu Encanto

 
Vem, Primavera,
Jogue sol nessa casa,
Espante os fantasmas
De minha alma perdida.

Vem, Primavera,
Tome meu corpo de alegria,
Ninguém reclamará se por um dia
Eu parecer possuída.

Vem, Primavera,
Sussurre em meu ouvido
Cantos de pássaros,
Promessas de um recomeçar...

Taiasmin Ohnmacht