sexta-feira, 15 de abril de 2016

TRAÇOS




Taiasmin Ohnmacht

Visto tua roupa
Ganho teus traços
Moldo meu corpo e meu abraço
E o que importa é o vazio de tua forma
Onde me encaixo.

terça-feira, 12 de abril de 2016

POST MORTEM




Taiasmin Ohnmacht





Todos os dias ele calçava um sapato social preto. Nem sempre era o mesmo, tinha seis pares iguais. Gostava de usar calças sociais e não imaginava outro sapato que combinasse melhor com elas.

            Edgar tinha estilo. O mesmo, sempre. Camisas claras, calças escuras e sapatos pretos. Era um homem cuidadoso, previdente. Não se importava que alguns o chamassem de previsível. Assim ele era e ponto! A bem da verdade, tinha pouca sorte com as mulheres, mas a maioria dos homens que conhecia tinham menos sucesso com o elas do que gostavam de confessar.

            Diariamente, Edgar acordava na mesma hora, tomava banho na mesma hora, lia jornal na mesma hora, enquanto seu intestino funcionava, sempre no mesmo horário. Chegava ao cartório às oito horas, pontualmente, e deliciava-se em cumprir sua rotina de conferir, carimbar e assinar. Às vezes, carimbar, conferir e assinar. Na mesa ao lado, Patrícia. Ruiva, sorridente e simpática com todos. Edgar tinha dúvidas se ela conferia alguma coisa. A julgar pelo número de vezes que levantava, sentava e conversava com os colegas, ele suspeitava que ela arriscava-se a apenas carimbar e assinar. No entanto, nada comentava. Não era do tipo de se intrometer na vida dos outros. O problema é que a vida dos outros costumava intrometer-se na dele.

            O dia começou igual a todos os outros até Edgar chegar ao trabalho. Estranhou grande parte dos colegas reunidos ao redor da máquina de café. O clima pesado era óbvio.

- Tu não soube, Edgar? A mãe da Zuleika morreu.

            Zuleika, a moça da limpeza. Pobre Zuleika, pensou.

- A gente tá fazendo uma vaquinha para ajudar no enterro. Sabe como é, momento difícil...

            Pobre mesmo! Edgar pensou na indignidade da situação. A mãe morre e a filha ainda tem que se endividar para o enterro. Existe coisa pior?

- A família até conseguiu um jazigo, o problema são os serviços funerários.

            Edgar sentiu um frio na barriga. Há muitos anos pagava mensalmente um jazigo eterno, mas nunca havia pensado nos serviços funerários. Como deixou esse detalhe passar? A morte pode chegar a qualquer momento, não deveria estar desprevenido. Edgar abriu a carteira, tirou a maior nota que tinha como sincera contribuição e foi para sua mesa trabalhar. Na hora do almoço, enfrentou o calor de fevereiro com sua calça preta e o sapato social. No restaurante de sempre, Patrícia e outros dois colegas o encontraram já no meio da refeição. Edgar não teve outra opção senão convidá-los a sentarem. Ele gostava de almoçar sozinho com seus pensamentos. Comer era uma atividade de suma importância para o bom funcionamento da saúde e fazia questão de prestar atenção nas cores que comia e na ordem que elas eram conduzidas ao seu aparelho digestivo, mas naquele dia não teve jeito, foi obrigado a escutar Patrícia. Animada, falava sem parar sobre os vários bailes de carnaval aos quais iria na praia, durante o feriado. Edgar nunca teve interesse por carnaval, gostava de Patrícia, mas tinha assuntos mais importantes para resolver.

            Naquela semana, visitou várias funerárias. Descobriu modelos de caixão inusitados, com madeiras entalhadas e cetins deslumbrantes. Ouviu explicações interessantíssimas sobre maquiagem pós morte, na qual, enfim, a pessoa encontrava a sua melhor aparência. Em alguns casos, melhor do que jamais tivera em vida! Edgar começava a pensar até na possibilidade de frequentar alguns velórios para pegar dicas e recomendações de funerárias. Isso, até entrar na funerária Encontro Certo. Lá foi recebido por uma vendedora tão lúgubre quanto o negócio com o qual trabalhava. Toda de preto e pálida, escutou as perguntas de Edgar com respeitoso silêncio. Abriu uma gaveta com movimentos quase cerimoniais. De lá, tirou um álbum com capa forrada de veludo roxo.

- O senhor veio ao lugar certo. Olhe estas fotos e verás que o nosso trabalho é de pura arte.

            Edgar abriu o álbum também com alguma cerimônia. Seu coração bateu forte. Homens, mulheres, velhos e jovens, até algumas crianças. Todos pálidos, olhos fechados, rostos perfeitos, mas inertes. A morte dominava a cena em todas as fotos.

            Ele saiu zonzo da funerária. Era final da tarde de sexta, a cidade estava esvaziando rumo às festas de Momo. Edgar chegou cedo em casa e descalçou os sapatos pretos. Andou por um tempo no apartamento sem saber o que fazer com tantos dias de folga pela frente. Até que não teve mais dúvidas. No armário, pegou uma mala, não tinha muitas roupas para botar, teria que comprar algumas pelo caminho. Iria de chinelo de dedo. Pegou o carro e foi para a praia.




segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PARA DIZER ADEUS



Taiasmin Ohnmacht




Eu não quero escrever. Não quero contar sobre teus olhos castanhos ou sobre teus lábios macios. Ainda moras em mim, meu ventre ainda grita por ti, ainda sou a outra em que me transformaste.

Meu nome é Helena Gaia, e digo isso para não romper completamente com quem fui até te conhecer. Digo isso para sustentar a ponte entre dois mundos nos quais me esgarço e me perco.

Tenho a garganta cheia de palavras.

Acabou-se o tempo das certezas, tudo o que foi encontro um dia, acabou-se.

E como chamar-te, meu...?

O que dizer de quem ainda está tão dentro de mim? Ator de uma ausência/presença absurda.

Tenho tanto a dizer e já disse, mas diria de novo e muitas vezes, com sussurros embriagados de amor e de porra, se isso garantisse que voltarias. No entanto, levanto um brinde ao teu silêncio sempre calculado, estratégico.

Gostaria de saber que mentiras te contas. Eu as ouviria e gargalharia alto e me apaixonaria ainda mais porque conheceria a ti e a teu medo, conheceria tuas verdades e teus abismos e mentiria para mim mesma, acreditando em te ter por inteiro.

Não posso dizer que era feliz antes de ti, mas a vida fazia mais sentido. A tua chegada deslocou-me de meu mundo.
II
Chego em casa às 7 da noite. Ascendo as luzes e coloco música. Tento dar ao apartamento uma ficção de vida, algo que não tenho nem em mim. Às 8, acompanho Elis Regina chorar ao microfone. Ela ao microfone, eu em cima do prato que preparo para aquecer ao forno. Às 9, com Chico Buarque, juro que passo bem e que serei feliz. Cochilo às 10 e acordo à uma da manhã, pura angústia, nenhum traço de sono ou do sonho que só deixou por rastro o medo do tamanho da madrugada.
Preciso pensar, preciso pensar e não me resta outro caminho que não seja lembrar e me conto a única história de ninar possível:

ele chegou em um dia de temporal, e era verão. O barulho alto da chuva na rua fez com que me demorasse ainda mais na loja de sebos. Eu vasculhava os livros, ele buscava abrigo. Nossa primeira conversa foi entre três, nós e o dono da loja. A água despencava do céu e estávamos ilhados. Faltou luz e o dia precocemente escurecido fez com que o encanto da voz me levasse à curiosidade pelos traços do rosto. Não falamos sobre livros, descobri rapidamente que ele só fazia leituras breves e virtuais. A música foi o assunto que semeou nossa conversa e que nos levou até o fundo do sebo para o acervo de discos de vinil.
 A chuva passou e o abriguei em meu apartamento. O amor foi faminto, feito de sexo e discos espalhados pelo chão. E depois daquele encontro houve outros, todos os dias, por muitos dias. Quantos? Todos com a promessa de apresentarmos nossos mundos um para o outro, de compartilhar tudo, pois cada vez mais nos confundíamos, pensamentos e alma.
III
Agora, olhando para o mesmo chão que recebeu o calor de nosso amor, deitada na cama cúmplice de nossas longas conversas cheias de descobertas, sei que fui ingênua. Sei que acreditei demais. Mas também sei que não tem mais volta, que minha vida ignorando tua existência acabou. E isso é o inferno longe de ti.
Quantas vezes desapareceste, desde então? Tens sido uma efeméride, marcando o tempo de vida e de purgatório. Não, não me engano. Não é o paraíso que se opõe ao purgatório. É estar no aqui-agora, por escolha, vivendo as dores e delícias do momento, convicta de que nenhum outro lugar seria melhor. E eu não conheço outra definição para isso que não seja vida. Paraíso não existe, e te desejar me deu essa certeza. Isso eu aprendi; existe vida, purgatório e inferno.

 A fragilidade do mundo virtual não me ajuda. Me ingnoras com facilidade em bytes e pixels.

Sei o teu endereço e o teu telefone, mas do que adianta ir atrás de ti – e já fui – se ao te encontrar não te encontro para mim? Já me deixaste muito claro: és tu quem bate à porta, e não o contrário. Eu abro.
IV

O dia amanhece antes do meu sono, olho o céu azul e me pergunto como posso fazer para comparecer a minha vida? Às doze horas de ruas, transporte e escritório que tenho pela frente?

Não tenho sono, mas também não vejo propósito em me levantar da cama. Mesmo assim levanto. Tudo já está no chão; travesseiros, lençol e cobertor. Por que não eu?

Queria ser um objeto, existir apenas. Não me movimentar por mim mesma, ter por destino a permanência de formas e propósitos. E me deteriorar aos poucos, ou de uma vez, ou me perder em algum canto, sem consciência nem da morte, nem dos lugares.

O que deseja a almofada ou a cortina?

Amo e não sei quem sou. Amo? Essa toxicidade é amor?

Já mudei tantas vezes, mas agora mais do que mudei, me perdi. Dizem que toda mulher tem um quê de bruxa. A única certeza que tenho de mim é do meu caldeirão que ferve. Não digo que é bom ou mau. Não sei. Sei que ferve e me movimenta.

Sim, sou uma bruxa. Vou apostar no que sinto, vou apostar que um fio nos une. Amor? Destino? Loucura? Vou acreditar que me escutas, com o mesmo interesse que me escutava nas madrugadas nesta cama. Vou confiar que tua pele, teus pelos, teus órgãos, podem responder ao meu desejo, pelo simples fato que independem de teu raciocínio e necessitam de mim também. E vou gritar para esse ridículo céu azul que te quero. Vem! Me procura! Preciso de ti! Me escuta! Escuta a agonia de meu corpo! Mesmo que não queira, ainda que a distância seja grande, sinta minha fome de ti.
V

Tens os cabelos macios e amo o cheiro de tua pele. Choro sobre teu corpo adormecido e beijo e sinto o salgado de teu suor e de minhas lágrimas. Nada pode dar errado, chegaste porque escolheste chegar e transformaste meu mundo mais uma vez. Estamos juntos e meus cabelos foram teus, meus lábios, meu ventre, e meu corpo é teu e assim somos um do outro.

Amanheço em teus braços lambuzada de vida. Teu abraço, teu cheiro, mais uma vez amor. Estudo teu olhar e teu sorriso. Sim, estás aqui, sem prazo de validade.

Tomamos café e nos tragamos de várias formas. Temos todo um final de semana pela frente.

Pedes desculpa e se retira para um canto. Fumas, eu não, mas divido um cigarro contigo, ainda lido mal com a menor distância. Olhamos pela janela a fumaça se projetar pelo ar, e andares abaixo transeuntes na rua. Sou mais afortunada que qualquer um deles. Sou A escolhida pelo amor.

Observo que formigas começam a invadir a cozinha. Pequenas e açucareiras. Não, hoje não vou me preocupar com as formigas, penso comigo. Podem assaltar meus potes, contrabandear os restos de comida. Elas só vêm porque tem fartura na casa. Disso eu sei. Também estou me refestelando.

A vida segue tranquila. Cumprimento os conhecidos na rua com sinceros “tudo bem”. Se for algum amigo, paro e compartilho a felicidade de amar. No trabalho sou condescendente com o mau humor, encaro a todos com um olhar cristão. Eu sei o que é o amor. Eu amo e sou amada. Sei que é raro. Perdoai-os pai, eles não sabem o que fazem. Meu amor é egoísta, mas também sobra. Não há como definir. Me tornei tão generosa que divido o que tenho até com as formigas. Tudo o que tenho, mas não a ti. Não te divido, és o meu sol, é de ti e por ti que emana esse amor. O resto da humanidade que se contente com os reflexos.
VI 
Olhas pela janela e o cristal líquido reflete teus olhos. As minhas lágrimas são invisíveis. Adormeci com tua mudez, amanheci com tuas dúvidas.

Estás me preparando para tua partida. Não tens mais certeza deste ser teu lugar. Tens outros interesses, talvez um único outro interesse. Uma mulher. Negas ser outra pessoa, titubeia, desdiz, afirma o contrário. Certeza, só a minha do inferno que se anuncia.
Agora estás quieto na cama. Tu e o celular. Maldito 3G, 4G. Desgraçada Gaia, a grande Gaia que nunca encontrou um porto seguro e se mantém do jeito que pode, sozinha e aos tropeços.

Não suporto o silêncio que não seja da calma, entre nós o que há é um poço sem fundo e nossos corpos jazem à beira, pasmados de não entender. Eu me assusto e tu foges por entre espelhos. Mas desta vez vou segurar tua mão, ainda que seja apenas carne e osso, porque o essencial de ti escapa ampulheta abaixo e me recusas reconhecimento. Dizes-me que partirás. O pão? O vinho? Meu corpo? Um cálice de sangue.

Não, não vais. Vou segurar tua mão até minha morte, até criar coragem e fazer da queda livre minha vida, até te arrastar para tudo o que não sou e preciso ser. Sem volta para mim e para ti.

Sei tudo sobre perder, nunca desejei saber tanto.

Meu amor, me esconde em tua mão como quem cuida de um pássaro ferido. Beije a minha fera, cicatrize a minha fera e a ponha para dormir.
VII


Acordo sem sonhar e não estás ao meu lado. O pequeno apartamento me permite dominar todas suas entranhas com apenas um olhar, mas as paredes emudecem e confirmam tua ausência. Se fossem desgraçadas como eu ficariam constrangidas em dar tal confirmação.

Rolo para teu lado da cama e busco teu cheiro, quero te recriar do quase nada que indica tua presença, geração espontânea do amor. Mas minhas lágrimas não são férteis o suficiente. O dia que começou com teu corpo suado ao meu lado, termina com o travesseiro manchado do sal de meus olhos.


VIII


Ando por aí. Todos os dias amanheço, faço compras, encontro com vizinhos no elevador e os cumprimento com a previsibilidade tácita dos humanos. Aquilo a que chamam de boa educação, eu chamo de maquinaria. Coloca minha maquinaria para funcionar e atendo telefonemas, preencho guias, leio contratos, converso com clientes.

 Desde há muito tempo sei que nada tem sentido, vou vivendo porque não sei fazer diferente, mas esse quebra-cabeças de peças impossíveis de encaixar nunca me assustou. Sempre me considerei mais lúcida, mais livre, por saber que ao final não vai se formar uma paisagem bonita e mesmo assim será o fim. O que me assusta é essa necessidade de te sentir, uma necessidade física que me faz querer inventar sentidos extras no meu corpo para te absorver. Meu.
Eu não era feliz antes de ti, mas pelo menos não vivia a vida dos dependentes.
Quero te ver, vou me ocultar por teus caminhos, começo a duvidar que existas. Como consegues viver sem mim? A noite chega, todas as horas do dia são uma referência a tua pessoa.

Não conseguirei dormir, na verdade, creio que morrerei. Estou sentindo uma palpitação forte, galopante. Preciso escrever uma carta de despedida e colocar a responsabilidade de minha morte em ti. Todos saberão e viverás com a culpa, e assim, estarei um pouco contigo, senão para nossa felicidade, pelo menos em teu martírio.

 Músicas não ajudam, me farão recordar de nossas conversas, dos momentos em que dançamos juntos pelo quarto, tudo será mais doloroso. Acabo cedendo, nada pode ficar pior. As janelas estão abertas e a voz de Bethânia me conduz ainda mais para o fundo do poço. Sem assassinatos, mas andando para encontrar o beijo frio da morte. As minhas janelas já estão abertas, Bethânia, o que faço? Espero os insetos entrarem para declararem o meu fim? As formigas trabalham em minha cozinha, mas pouco interesse têm pelo meu corpo.
IX
           

Contrariando previsões, amanheço. Um pouco mais tranquila, um pouco mais morta. E tu como estás? Tens interesse em saber de mim? Queres saber como estou? Apostas em quê? Dor? Indignação? Raiva?

Amor.

Ando muito só desde tua partida. Tenho sonhado contigo – e não sonhava antes. Desde que partiste ando enlutada, trajando vestidos coloridos para enganar minha dor. Procuro emudecer minhas entranhas, evitar que elas gritem o teu nome, porque respondes, sempre respondeste quando minha voz se cala e te chamo com tudo o que há de mais quieto em mim. Sei apenas que continuo bruxa, por onde quer que ande, continuo bruxa. E meu caldeirão ainda ferve.

E quero que venhas, mas não quero que respondas. Não quero voltar para a dissimulação das palavras, não quero voltar a procurar sentidos no silêncio. Quero o calor do teu corpo, ou não quero nada.
X

Já não penso na morte, vou retornando ao que sempre houve para mim; um quebra-cabeças que não pode ser perfeitamente montado. Ando pelo mundo e às vezes enxergo um perfil, uma cor, uma delicada luminosidade que me lembram de tua presença. Mas já sei ser uma presença vazia. Estou além da saudade. Nunca mais te vi e prefiro assim.

Mudei as cores das paredes e os móveis de lugar. Está leve transitar pela minha casa. O poço que não tinha fundo, era travessia. E agora sei apenas que passei, pouco me lembro do que ficou para trás. É manhã fria de outono, e acabo de me arrumar para um dia de trabalho. Abro a porta e saio para a vida.





terça-feira, 10 de novembro de 2015

DOIS DEDOS DE WHISKY E MUITO GELO

 
(Teatro)
 

 

 
Taiasmin Ohnmacht
 
 
Personagens
Mirela: mulher atraente de 40 anos, nervosa e carente.
José: homem de 60 anos, aparência desleixada, barrigudo, agressivo.
Paulo: homem de 40 e poucos anos, solteiro, colega de trabalho de Mirela.
 
Cena 1
Mirela e José.
Sala de estar, meia-luz. Balcão, sofá de três lugares, televisão, bolsa sobre o balcão. Mirela e José estão lado a lado no sofá, entre eles, um pequeno espaço. Assistem futebol na tv. Mirela veste roupas simples e tem uma aparência mal cuidada. José está de camiseta e cueca samba-canção.
José: Vem cá, mulher! Não fica distante assim, não! Junta aqui, meu chicletinho querido. A gente foi feito pra ficar sempre juntinho.
            Mirela, contrariada, olha para José e fica bem próxima dele, que passa o braço por trás dela. Eles ficam um pouco assim, até que José começa a olhar para ela e para a tv, avaliando o interesse de Mirela pelas imagens do jogo.
José: Tu vai ficar assim, mulher? Pensa que pode ficar olhando as pernas e bundas desses jogadores? Mas tu é uma vadia, mesmo! Pode ir na cozinha preparar a janta e lembra: estou sempre ligado em ti!
            Mirela levanta em silêncio, mas demonstra nervosismo, sai de cena enquanto José coça o saco e se espalha no sofá, olhando ao jogo.
            Alguns segundos depois, Mirela retorna e arruma a mesa colocando pratos e talhres. Chama José para jantar. Os dois se sentam à mesa.
José: Quando tu vai pedir demissão?
Mirela (espantada): eu não vou pedir demissão! Eu gosto do meu trabalho.
José: Sei. Tu gosta é de ficar desfilando pro teu chefe.
Mirela: Eu já te falei mais de mil vezes que a minha relação com o Paulo é apenas profissional. Trabalhamos na mesma empresa, só isso.
            Depois de alguns minutos de silêncio ela completa:
Mirela: E eu gosto do meu trabalho.
            José faz uma careta ao escutar isso.
José: O que tu tem que te convencer, Mirela, é que nunca vai encontrar homem melhor que eu. Eu cuido de ti, mostro pra ti como as coisas devem ser e ainda te trato como uma princesa. Ninguém vai te amar mais que eu.
            Mirela faz uma careta ao escutar isso.
            José levanta.
Mirela: Não vai acabar de comer?
José: Não, perdi a fome só de olhar pra cara dessa comida. A gente ganharia mais se tu fizesse um curso de culinária em vez de trabalhar fora. Vou dormir.
            Ao passar pelo balcão, José para em frente a bolsa de Mirela.
José: Ainda não olhei a tua bolsa hoje.
            Mirela fica tensa.
José: Quando for deitar leva junto pra eu dar uma olhada.
            José sai de cena.
Mirela acaba de comer, retira os pratos, alguns talheres permanecem na mesa, incluindo uma faca. Ela vai para o sofá, se deita confortavelmente, pega o controle remoto e, com prazer começa a assistir um programa, assim que ela se acomoda, escuta José, de fora da cena:
José: Vem deitar, Mirela! Estou te esperando.
Mirela: Vai dormir, homem!
José: Vem deitar, que eu não tô conseguindo dormir.
Mirela (brava): Tu não dorme com os meus olhos! Me deixa em paz!
            Alguns segundos de silêncio:
José: Não me faz te buscar aí, Lembra da última vez? Melhor tu vir com tuas próprias pernas. E vem rápido que precisamos dormir cedo. Amanhã vou contigo assinar tua demissão.
            Mirela treme de nervosa, desliga a tv e se levanta. Suas feições estão visivelmente alteradas.
Mirela (com um tom de voz alterado): Já vou, amor!
Mirela olha pela sala. Vai até a mesa, pega uma faca de cozinha e a empunha. Pensa e larga a faca na mesa. Anda até o balcão pega um copo e uma garrafa de whisky, leva para a mesa e, tremendo enche o copo com o líquido.
Mirela: Já estou indo, amor! Vou levar um whiskinho pra relaxar.
            De fora de cena se escuta uma risada prazerosa.
José (animado): hoje vai ter festa! Que noite!
            Mirela mexe em sua bolsa e tira um pequeno frasco, segura ele com força entre suas mãos, expressa alguma dúvida, mas por fim, despeja o conteúdo dentro do copo. Pega o copo e leva para José.
Mirela: Claro que vai ter festa! Essa e em todas as próximas noites...
            Mirela sai de cena.
            De fora da cena se escuta o diálogo:
José: Eu estava precisando desse trago. Mas, engraçado, tem um gostinho meio estranho.
Mirela: Bebe, amor. É whisky antigo, nem um autêntico escocês reclamaria.
            Barulho de vidro espatifando no chão.
 
Cena 2
 
Mirela e Paulo.
Mirela linda, muito arrumada e sedutora. Paulo bem arrumado, veste roupas joviais e descontraídas.
 
            Sala de estar de Mirela. Muito iluminada. Em cima do balcão um vaso tipo urna, com uma tampa e um pequeno rádio.
Mirela sozinha na sala.
Mirela: Ah, ele vem! Paulo vem! Eu amo esse homem! E se ele vem é porque também gostou de mim! Depois de tanto tempo só suspirando por ele no escritório...
            Mirela para surpresa como quem escuta um barulho inesperado.
Mirela: Preciso parar com isso! Eu sou uma mulher livre! José me deixou porque quis! Ele se foi!
            Ela suspira e parece mais calma.
Mirela: O Paulo vai chegar daqui a pouco, agora eu sou do Paulo, preciso me acalmar.
            Mirela olha para o balcão, vai até ele, abre e tira um copo e uma garrafa de whisky, serve a bebida no copo o coloca ao lado do vaso.
            Toca a campainha, Mirela sorri e sai de cena. Ela retorna em seguida aos beijos e amassos com Paulo.
Mirela: Só um pouco, Paulo! Espera!
Paulo: Esperar o quê, Mirela? Cansei de esperar por isso! Eu te quero muito, não aguento mais ficar só te olhando lá no escritório. Eu pensei que nunca fosse conseguir me aproximar de ti, te desejo desde quando tu ainda era casada.
Mirela: Não! Eu te pedi pra não falar nele.
Paulo: Como assim? Tu não me disse que ele te deixou? Vai me dizer que ainda quer ele de volta?
Mirela: Deus me livre! Aquele homem era um demônio na minha vida. Vigiava todos os meus passos. Não me deixava viver, me afastou da família e amigos, dormia com um olho aberto e outro fechado, achava que eu me levantava no meio da noite pra me encontrar com outros homens.
Paulo se aproxima de Mirela, bota a mão delicadamente nos lábios dela, pedindo silêncio e a beija.
Paulo: Então, Mirela, vamos esquecer ele, vamos pensar na gente.
            Mirela se afasta novamente e se senta no sofá.
Mirela: Ah, não dá pra ser assim. Quem sabe a gente conversa um pouco antes.
            Paulo anda pela sala, para ao lado do balcão, pega o copo, cheira e toma um gole. Mirela olha espantada.
Paulo (entediado): Tá, tu quer falar sobre o quê? Economia, política?
Mirela: Respeito.
Paulo: Eu tô brincando, Mirela! Claro que eu sei que tu é uma mulher inteligente.
Mirela (fala se referindo ao copo): Respeito com as coisas dos outros. Não pode ir pegando assim.
Paulo olha para o copo em sua mão e faz pouco caso. Deixa o copo em cima do balcão de novo e abraça Mirela.
Paulo: Não pode? E tu? Eu posso pegar? Esse teus lábios, esse teu corpinho que me deixa louco!
            Mirela ri e os dois se beijam apaixonadamente até ela se assustar com algo, Paulo não consegue entender.
Mirela: Tu ouviu isso?
Paulo: O quê? Não escutei nada.
            Ela caminha tensa pela sala e para perto do balcão.
Paulo: Relaxa, Mirela. Até parece virgem! Pensei que depois de ter passado por um casamento, tu fosse mais quente.
Mirela (começa a frase com ênfase e termina desanimada): Tu está me chamando de fria? Pois saiba que eu deixava o José tão louco que ele nunca mais me deixou em paz...
Paulo: Desculpa, eu não quis dizer isso, esqueci que as mulheres são cheias de mimimi.
Mirela (séria): Tu não me conhece! Agora vou te mostrar quem realmente sou! Quer tal streptease?
            Paulo fica muito animado, comemora e se joga confortavelmente no sofá.
            Mirela anda até ao balcão para ligar o rádio. Hesita, olha para Paulo.
Mirela: Dá pra apagar a luz?
Paulo: Como assim, Mirela? Streptease no escuro?
Mirela: Já sei!
            Mirela pega um pano e cobre o vaso na cômoda.
Paulo: O que tem aí? Tu te separou mesmo? O que tu tem com esse vaso? O que tem aí dentro?
            Mirela está assutada.
Paulo: O teu ex te vigia? Ele colocou um microfone aí? Câmaras pra te vigiar?
            Paulo levanta determinado e vai em direção do vaso, Mirela tenta oferecer obstáculo com o próprio corpo, mas Paulo consegue puxar o pano e derrubar o vaso que cai esparramando cinzas no chão. Mirela grita e se abaixa desesperada tentando recolher as cinzas.
Mirela: José!
            Ela olha para Paulo.
Mirela: O que tu fez com o José? Ele me atormentava, mas não merecia ficar todo espalhado assim!
Paulo: José? Isso é o José? Ele morreu? Tu guarda as cinzas dele?
Mirela: Tu vai ser morto se não for embora daqui agora mesmo!
            Paulo sai gritando.
Paulo: Louca! Louca!
Mirela se abaixa e começa pateticamente a juntar as cinzas de José.
Mirela (chorando): José, não te preocupa, eu vou te arrumar direitinho. Bem que tu disse, José, que eu nunca iria encontrar alguém como tu. Calma, querido, vou te colocar no lugar. Não te preocupa, amanhã vou servir um whisky temperado pro Paulo, não te preocupa, meu bem, ele vai ter o que merece.
Mirela (de repente para de chorar): Dá pra, pelo menos, fechar os olhos?
Apagam-se as luzes.

 

 

 
 


sábado, 29 de agosto de 2015

CONSIDERAÇÕES





Taiasmin Ohnmacht
 
 
 
 
eu não sei o que faz uma mulher
creio ser uma
mesmo sem balagandãs
maquiagens
belos adereços
eu me preocupo com a sujeira em baixo das unhas
e com pelos em exagero
seria isso?
e a boceta?
não me venha com vagina
nem com vulva
única palavra feminina
boceta
parece indecente porque os homens
se apropriaram dela
parece indecente por ser cheia de desejo
é o seu sangrar mensal que me faz feminina?
é o seu latejo?
é por eu ser uma passagem para a vida?
não tenho uma marca inequívoca
o que existe hoje não existirá amanhã
o que é mulher em mim brinca
de esconde-esconde
talvez entre os seios