sexta-feira, 3 de maio de 2019

ENTRE

  Resultado de imagem para PENUMBRA SALA


Taiasmin Ohnmacht

  mas sei, tem algo que não se encaixa, sempre tem. No caso desta sala, sou eu, porque estante e mesa combinam super bem.
  Tem uns óculos em cima do aparador que são de ninguém, mas como estão ao lado de uma agenda aberta, página em branco, talvez eles esperem algum registro para se arvorarem utilidade.
  Os controles remotos são rebeldes, se sabem desejados, daí se dão ao luxo de brincar de esconde-esconde com urgências fingidas.
  O sofá faz convites para a escolha de um livro da estante. A comodidade do assento para viagens sem cinto e sem segurança.
  Flores artificiais no vaso garantem que o risco de morte seja apenas meu.
  Garanto a minha vida quente e perfumada no café que passo para as visitas, mas não me encaixo bem nem no sofá, nem na estante.

domingo, 20 de janeiro de 2019

JUNTOS

Resultado de imagem para reticências


Taiasmin Ohnmacht


e como se distantes fossem

espaldar com espaldar
olhares em direções opostas

supor um leve sinal
sentir o perfume
ouvir canções silenciosas
um rastro de presença
em tanta ausência sentida

um traço demente
afigura um final
pretendido fingido dissimulado

terça-feira, 4 de setembro de 2018

PELA JUSTA MEDIDA

Resultado de imagem para fiel da balança

Taiasmin Ohnmacht


o fiel da balança
balança em angústia
e dança aos olhos
da tia com pequena
quantia para o pão

o cidadão que vende
mente cada centímetro
de falsa calibração
o vazio da barriga
explica o silêncio
da boca e encerra questão.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

CIRCULAR



Taiasmin Ohnmacht

de tudo o que tinha. Tiro. Frames confusos. Tiro. Grito até encontrar o silêncio premente. Pré-mente. Conta a ti mesmo e eu mentirei quantos tu és. Quantos és tem a palavra buscapé? Sem mente, corre no chão, sem mente, zigue-zagueando, sem mente, para, estoura, enterra. Cresce carcomido o adeus que te dei, árvores tronchas de galhos a se fingirem dedos. Devo dizer, de galhos a se fingirem pelos. Devo dizer, devo dizer, devo dizer. Ponto. Restam folhas de alface para fazer. Pronto. Prato feito, primeiro minuto. Tiro o sal de minha carne. Tiro o sal

domingo, 17 de dezembro de 2017

TEIAS TRILHAS NEGRAS


Taiasmin Ohnmacht
(Profundamente tocada pela dinâmica do sarau negro Sopapo Poético e livremente inspirada pelo poema Gritaram-me Negra, de Victória Santa Cruz)
Criança que voava a rua

Sentindo o cheiro de terra

Grama e calçada


Um dia caí

─ Você não é negra,

É queimadinha do sol.


E caí

Não no chão

(meus joelhos já estavam acostumados)

Caí em uma teia grudenta

De sorridentes ilusões


Minha mãe é negra

Pensei

Eu também

Só um pouco mais clara

Isso importa?


Importa!, disse o coro

E quanto mais clara, melhor


À clara

Prefiro a gema

E se gemo com o prazer do sol

A deitar-se em minha pele

Não é para justificar minha cor


Sou negra!

Assim como minha mãe

E minha avó


Diga que é o sol

E tudo fica mais fácil

Seu nariz não é de negro

Diga que é morena

E terá o sol por culpado


Saboreio a palavra morena

Promessa de delícias

Mas não sou morena

Sou negra!

Assim como a minha mãe

E minha avó antes dela


Mas, de repente

Não encontro mais sabor

Em minha cor

Nem no verde das folhas

Dos galhos que subo

E a terra úmida

Não me oferece mais encontro


Não estou mais no mundo


Busco minha mãe

Peço que ela confirme

Minha presença negra

Mas não estou mais no mundo

E seu olhar é apenas promessa

Não cumprida.


Tenho anos

Muitos anos em uma teia

Que embaraça meus cabelos

E minha visão

Embaraça meu corpo

Em formas que desconheço

Não me reconheço

Esqueci o olhar de minha mãe

E as teias não me dizem quem sou


Mas se não sou

Posso inventar-me

Romper fios

Mudar a posição dos nós

Conexões inesperadas

Surpreender olhares

Fazer novas costuras com meus cabelos

Criar novos espelhos

E nos fios rearranjados da teia

Reencontrar minha pele

Negra a brilhar

À luz do sol

O nariz largo de minha mãe

A brincar com o meu

Em beijinhos de esquimós

E os meus cabelos altos

Em busca de liberdade


Negra

Negra

Negra

sábado, 4 de novembro de 2017

CAMINHOS



Taiasmin Ohnmacht
 
 
 


Olhou para o céu e viu uma estrela cadente. Não havia pedidos a serem feitos. Lembrou o jornal da noite anterior. Vários meteoros se aproximariam da terra. O mundo segue seu próprio script, não se interessa pelos dramas humanos.

Precisava andar até o carro e o ar da noite era congelante, mesmo tão bem agasalhada sentia a aragem cortar suas bochechas. Lembrou-se do quarto quente que acabara de deixar. Queria voltar, queria partir. Já sentia saudade do cheiro dela em seu corpo. Tomou um banho quente antes de deixar o apartamento e o sabonete roubou-lhe os restos da paixão. Se retornasse, a encontraria disposta a amá-la mais uma vez? Nada disso interessava, pois tinha outro destino, mesmo sabendo que o único olhar que importa é o de desejo.

            Arrancou o carro com a determinação dos que não pensam, seguindo apenas o caminho já traçado. Não havia arrependimentos, nem pelo quarto deixado, nem pela estrada escolhida, só a vaga sensação de que a vida é mais complexa do que lhe ensinaram um dia.

            Abriu a porta para a acolhida de seu lar. Os filhos pequenos a receberam em festa. Com um no colo e o outro segurando sua perna, foi até a sala e cumprimentou seu marido com o beijo rápido dos conviventes de longa data.

- Eu fiz janta. Comeu fora ou aqueço a comida?

domingo, 6 de agosto de 2017

LUANA DAS ENCRUZILHADAS


 

Taiasmin Ohnmacht

 

Quando todos se foram, ficou a avó. Ficou, não; Luana das Encruzilhadas ficou. Sem escolhas, para avó e neta.

            Sentada à mesa, olhava a cozinha muito limpa; piso, mesa e pia. E a avó que ia e vinha ao redor do fogão. Cheiro de limpeza e de comida, mas Luana não tinha fome, quase nunca tinha.

            A mulher do conselho tutelar falou com sua avó, era a segunda vez. Na primeira vez, a avó se recusou a ficar com eles, a mãe disse que estaria sempre por perto, e o pai, desaparecido, assim permaneceu. A mãe foi a única que mentiu. E bons anos se seguiram. Luana das Encruzilhadas e os irmãos, fim de infância, início de adolescência.

            A avó falava e falava enquanto cozinhava, sempre falava demais, era muito ruído para Luana, fervura, fritura, metal raspando, metal batendo. Luana queria os irmãos, a casa em que viveram, a família que conhecera, a bagunça que era só deles. Queria o meio-fio onde ela e seus dois irmãos sentaram ao se darem conta de que a casa estava vazia e assim ficaria se eles não entrassem nela, e que ninguém os chamaria para dentro.

            Foi na encruzilhada que Luana tomou o primeiro gole. Em uma aposta com a criançada da rua, ela e seus irmãos pegaram a cachaça do santo, sem qualquer hesitação, só não pegaram a comida porque os cachorros chegaram antes.

            Pouco a pouco todos foram partindo, o irmão do meio morto em um assalto, o mais velho, de muda para a casa dos pais da namorada grávida, julgou que a casa das encruzilhadas não era bom lugar para criar filhos.

            Luana vagou por um tempo, becos, ruas, avenidas. Até se trancar em casa com muitas garrafas e a certeza de que tinha tudo o que era preciso. Não havia mais irmãos, não havia mais família.

            Os vizinhos que se mobilizaram anos antes e ajudaram as crianças com comida, não faltaram mais essa vez, mesmo acostumados com o caos da casa da esquina, ver Luana das Encruzilhadas fechando todos os caminhos com seu miúdo corpo ébrio caído, foi demais. Procuraram a mãe, os familiares, o Estado.

Sobrou Luana e as encruzilhadas. E a avó.

            Agora tudo o que Luana queria era apagar um pouco. Sua avó serviu-lhe o almoço, mas a menina apenas deslocava a comida de um lado para o outro enquanto se perguntava se não haveria algo para beber naquela casa tão limpa. Álcool, é claro! O cheiro de limpeza da casa era de pano com álcool.

            Levantou-se da mesa e começou a revirar os armários da avó.

─ A comida aqui é simples, não tem outra coisa.

            Luana não escutou, continuou revirando os armários, procurando álcool de limpeza.

─ Está procurando o quê, menina?

            Alimentos, panelas, pratos.

─ Senta e vem comer.

            Potes com arroz, feijão, açúcar. Saleiro, macarrão, café. Então, Luana escutou:

─ O mesmo desassossego do teu pai.

            Encontrou o vinagre de álcool. Pegou-o e olhou para a avó que lhe devolvia o olhar enquanto mastigava.

─ Eu não fiz salada, amanhã faço. O teu pai também gostava. Senta aqui, vamos almoçar.

            Luana sentou, derramou muito vinagre no prato e, por fim, comeu.